domingo, abril 08, 2012

Domingo de Páscoa


Que parecidas são as obras de Cristo, ainda as que menos se parecem! As tristes e as alegres: as dolorosas e as gloriosas: as de sua morte, e as de sua Ressurreição, todas causam os mesmos efeitos. Pasmadas deixámos as Marias, olhando para o Sepulcro de Cristo, quando se fechou, e pasmadas por deixarem ali morto a seu Senhor: Erat autem ibi Maria Magdalena, et altera Maria, sedentes contra Sepulchrum. Pasmadas acho outra vez as mesmas Marias no mesmo Sepulcro: e pasmadas de o acharem ressuscitado: Nolite expavescere: Jesum quaeritis: surrexit. De maneira que Cristo morto faz pasmar com a sua morte: e Cristo ressuscitado faz pasmar com a sua Ressurreição, sendo a Ressurreição e a morte duas coisas tão encontradas. Entraram as Marias no Sepulcro, viram um anjo vestido de neve de luz, que lhes deu novas do Senhor, a quem buscavam morto; e ficaram tão assombradas e pasmadas do que ouviam e viam, que por muito tempo não tornaram em si de assombro e de temor, por mais que o Anjo as animava a que não temessem: Nolite expavescere. A hora em que isto sucedeu também tem contradições no Evangelho. Diz o Evangelista, que quando as Marias vieram ao Sepulcro, era muito de madrugada, mas já depois do sol nascido: Valdè manè, orto jam Sole. Se era muito de madrugada, como era já nascido o sol? E se era já nascido o sol, como era muito de madrugada? Tudo era. Era muito de madrugada; porque ainda não era nascido este sol natural, que nos alumia: Valdè manè: e era já o sol nascido; porque já o verdadeiro sol Cristo era ressuscitado: Orto jam Sole.

Nas obras da natureza e nas obras da graça tem grandes semelhanças a Ressurreição de Cristo: mas nenhuma tão semelhante como a do sol. Põe-se o sol no seu Ocaso, deixa o nosso hemisfério escuro, enquanto desce, e vai alumiar os Antípodas; torna outra vez a nascer claro, resplandecente, e coroado de raios; enxugando as lágrimas da aurora: restituindo a cor e a formosura aos campos: despertando as músicas das aves: dourando os céus, e alegrando a terra. Tal o divino sol Cristo no dia de sua Ressurreição. Anoitecera no Ocidente do seu Sepulcro amortalhado em nuvens, deixando todo o mundo às escuras na tristeza de sua Paixão: desceu a visitar a alumiar os lugares do Limbo, onde os Santos Padres, como desconsolados Antípodas, havia tantos anos estavam esperando a chegada daquele dia: e voltou outra vez à hora determinada, fazendo Oriente do seu mesmo Ocaso: amanhecendo claro e formosíssimo, vestido e coroado de resplandores de glória. Enxugou primeiramente as lágrimas daquela aurora divina à Virgem Santíssima: restituiu a cor, e a formosura à sua Igreja, mudando os lutos de que estava coberta pela sua morte, em cores, e galas de festa: trocou as lamentações em músicas alegres, e os seus sentidos em aleluias: dourou os céus como mostraram os anjos, que hoje apareceram vestidos de branco e oiro: e finalmente alegrou a terra, dando a todos os homens mui alegres páscoas.

(…)

Pois que havemos de fazer no dia da Ressurreição de Cristo? Entristecer-nos? Tremer? Temer? Encerrar-nos? Sepultar-nos? Meter-nos vivos na sepultura, donde Cristo saiu? A esta pergunta não se pode responder do púlpito; do confessionário sim. Se estais em estado de pecado mortal, temei e tremei, e cause-vos grande tristeza a ressurreição; mas se estais em graça de Deus, e tendes propósitos firmes de a conservar, alegrai-vos, ponde a vossa alma e o vosso coração muito de festa, e não temais. Assim o disse o anjo às Marias: Nolite expavescere. Notai. Quando o anjo desceu do céu, e revolveu a pedra da sepultura, ficaram assombrados todos os guardas do Sepulcro, e o anjo não lhes disse: Nolite expavescere; e às Marias sim. E por que diz às Marias, que não o temam; e por que não diz o mesmo aos soldados? Porque as Marias iam buscar a Cristo ao Sepulcro para o servir: os soldados iam guardar o Sepulcro para o perseguir, e para o afrontar. E aqueles que perseguem e que ofendem a Cristo, esses é bem que temam na Ressurreição; porém, aqueles que o amam, e que o servem, esses não têm que temer: Nolite expavescere. Tema Pilatos, que o condenou: tema Herodes, que o afrontou: tema Judas, que o vendeu: tema Caifás, que o blasfemou: e temam todos o que o perseguiram e o crucificaram, quando sabem que ele ressuscitou, e que eles também hão-de ressuscitar. Porém a Madalena e as outras Marias: a Madalena e as outras Marias, que o buscam e que o servem, que se não podem apartar dele, essas não têm que temer: Nolite expavescere. Não é esta razão menos que a do anjo: Nolite expavescere; Jesum quaeritis Nazarenum. Se vós buscais a Jesus Nazareno, não temais. A energia destas palavras ainda está mais clara em São Mateus, que neste passo é comentador de São Marcos: Nolite timere vos; scio enim quod Jesum, qui crucifixus est, quaeritis. Não temais vós: (notai muito a palavra vós) vós que buscais a Jesus, não temais; porém aqueles que não o buscam: aqueles que não o amam: aqueles que o ofendem, esses temam a sua Ressurreição. A Ressurreição para eles será morte e tormento eterno, assim como para vós será eterna vida, e eterna glória. Os maus porque hão-de ressuscitar mal, têm razão de temer, mas os bons, que hão-de ressuscitar bem, não têm para temer razão alguma.

E que grande alegria, e que grande consolação é para um verdadeiro cristão na festa da Ressurreição de Cristo considerar que também ele há-de algum dia ressuscitar! Que grande seria a alegria de Madalena, quando visse o seu irmão Lázaro ressuscitado! A nossa alma é a nossa Madalena: o nosso corpo é o nosso Lázaro. Que alegria será a de uma alma considerar agora e ver depois este seu corpo, este seu companheiro ressuscitado! Ainda esta comparação não explica. Que alegria seria a da Virgem Senhora, quando hoje visse ressuscitado em tanta formosura e glória a seu benditíssimo Filho! Esta comparação é a própria. A Madalena viu seu irmão ressuscitado, mas ressuscitado para tornar a morrer. A Senhora viu ressuscitado a seu Filho, mas para não morrer jamais: Mors illi ultra non domina itur. A Madalena viu a seu irmão ressuscitado, mas em corpo passível, como o que dantes tinha. A Senhora viu ressuscitado a seu Filho em corpo imortal, e impassível, e ornado com todos os quatro dotes gloriosos.

Padre António Vieira, no “Sermão da Ressurreição de Cristo”, pregado na Matriz da cidade de Belém do Pará, no ano de 1658

2 comentários:

Constantino M disse...

SANTA Y FELIZ PASCUA DE RESURRECCIÓN!
VIVA CRISTO REY!

Fábio V. Barreto disse...

Viva Nosso Se hor Jesus Cristo!!!