quinta-feira, agosto 11, 2011

Leituras de Agosto - "Juana Tabor" e "666", de Hugo Wast


Num tempo normal, que não o que vivemos, o argentino Hugo Wast seria aclamado como um dos maiores escritores do século XX. Ao contrário, a nossa estranha época remeteu-o para um esquecimento mais do que comprometido: sabendo-se os antivalores que a dominam, compreende-se o porquê de tal atitude.

Em “Juana Tabor” e “666”, que a madrilena “Homo Legens” reeditou há não muito num único e cuidadíssimo volume, Wast demonstra em pleno todo o seu brilhantismo e genialidade. Nestas duas obras originalmente publicadas em 1942, de que “666” é a continuação e desenlace de “Juana Tabor”, e cuja acção decorre numa época pré-apocalíptica, situada pelo escritor nos últimos anos do século XX, durante a qual o Anticristo prepara a sua ascensão ao poder absoluto, o leitor acompanha eminentemente o percurso espiritual de dois membros de uma mesma ordem religiosa (a imaginária Ordem Gregoriana): o do velho Frei Plácido de Santiago e o do seu jovem superior Frei Simón de Samaria. Enquanto o primeiro mantém em tempos difíceis uma plena fidelidade à doutrina tradicional católica, o segundo arrogando-se o papel de reformador e modernizador da Igreja, ao pretender adaptá-la às supostas necessidades do mundo contemporâneo, acaba por enveredar por caminhos que o levarão à apostasia total e a transformar-se num mero peão do Anticristo.

Quase setenta anos decorridos desde a primeira edição destas obras, e sabendo-se o verdadeiro percurso que a Igreja Católica sofreu de 1942 até à actualidade, causa admiração a forma exacta e precisa como Hugo Wast retratou Frei Simón de Samaria - defensor de muitas, estranhas e heréticas teses -, este surge retrospectivamente aos olhos do leitor actual como um misto de Teilhard de Chardin e Karl Rahner. Só por isto, vale a pena ler tais livros. E Wast é um escritor cativante, cuja leitura, uma vez iniciada, é muito difícil de ser interrompida.

1 comentários:

NC disse...

É urgentíssima a criação de uma ordem que se oponha à desordem que já não avança a passo mas sim a galope. As soluções individuais não bastam é preciso uma actitude de grupo.

Cumprimentos,