sábado, setembro 29, 2012
Leituras para os tempos que vão correndo
Recomendadíssima a “Concepción Católica de la Economía”, do Padre Julio Meinvielle, uma obra todo ela embrenhada pelo pensamento social de São Tomás de Aquino e mais latamente da Igreja. Para que tantos católicos, ainda que com boas intenções, não tomem mais por católico aquilo que de católico nada tem e vice-versa. Leitura a ser complementada pela consulta da magnífica e renovada “Distributist Review” e do excelente “El Matiner Carli”.
Pequenos sinais evidentes
Um destes últimos dias - o que, de resto, faço em quase todas as semanas do ano - fui ao supermercado. Que tenha reparado, na ocasião, cruzei-me sucessivamente com três moçoilas, todas elas tatuadas: uma, tinha o desenho de um golfinho no pescoço; outra, de um conjunto de estrelas também no pescoço; outra ainda, por sinal trajada de forma bastante imodesta, de mais um conjunto de estrelas, desta vez abaixo do seu ombro esquerdo, e do que me pareceu ser um sol no respectivo tornozelo direito. Pelo meio, ainda topei um “orc” com um carácter chinês grafado na zona da nuca. Pensei para comigo: isto são pequenos sinais evidentes de uma sociedade em avançado estado de decomposição e em processo de acelerado retorno à barbárie. E lembrei-me então da leitura deste “Night of the Living Enlightenment”, de Michael J. Matt, publicado recentemente no “The Remnant”.
domingo, setembro 16, 2012
A desconstrução do Estado e da Igreja
A “AmChurch”, de que Michael Voris fala, é a “Outra” que nos Estados Unidos usurpou o espaço público da Igreja Católica e beneficia abusivamente do prestígio histórico acumulado por esta última. À imagem do que sucede com a sua irmã gémea, a “Igreja Autocéfala Modernista Lusitana”, em Portugal.
sábado, setembro 15, 2012
Um estranho afã
Ainda que conjunturalmente concorde com algumas das críticas feitas, não deixa de me causar estranheza o afã público com que D. Januário Torgal Ferreira tem fustigado - por duas vezes, nos últimos tempos - a pessoa do Primeiro-Ministro Passos Coelho e a política económico-financeira do actual Governo.
Não direi que o Bispo das Forças Armadas, com tal postura, haja extravasado objectivamente o âmbito do seu múnus episcopal, mas parece-me indubitável que o está a levar aos limites do admissível. Se porventura a sua posição crítica fosse manifestada de boa fé, a mesma poderia subsumir-se a uma defesa mediata, quiçá algo forçada, dos ensinamentos sociais da Igreja. Porém, boa fé em D. Januário Torgal Ferreira é coisa que creio não existir, supondo-o antes animado por outros interesses mais mundanos, mais rasteiros e mais difusos do que os ensinamentos da Igreja.
De facto, não é com certeza a preocupação com a salvaguarda do magistério eclesial que faz mover o Ordinário Castrense: fosse essa e ele teria defendido com denodo igual ao agora demonstrado a doutrina da Igreja concernente ao divórcio, ao aborto e aos emparelhamentos de homossexuais. E não foi isso que sucedeu, muito pelo contrário, conforme o demonstram as circunstâncias. Um estranho afã portanto, o de D. Januário Torgal Ferreira.
Para terminar, direi tão-só mais que alguém que exerce o cargo de Bispo das Forças Armadas deveria perceber, quanto à pessoa do Primeiro-Ministro Passos Coelho, que um homem que é favorável ao aborto e ao emparelhamento de homossexuais, por maioria de razão, não terá quaisquer escrúpulos em adoptar políticas que desrespeitem o pagamento do salário justo ou que oprimam os mais pobres. D. Januário Torgal Ferreira deveria perceber isto, mas desgraçadamente não percebe, porque na sua substância é igual a Passos Coelho, dele se distinguindo apenas acidentalmente quanto ao modo preferido de organização económica da sociedade - ambos materialistas, um favorável ao liberalismo anticristão; outro favorável ao socialismo outrossim anticristão.
sexta-feira, setembro 14, 2012
Passos Coelho é incompatível com os valores cristãos
Concordo com as linhas essenciais, sem prejuízo de preferir pessoalmente a monarquia católica à democracia cristã.
quarta-feira, setembro 12, 2012
La opción monástica
A menudo, en conversaciones con amigos sobre la situación
actual nacional y mundial, sale el consabido “… y ahora, ¿qué viene?”. En este
mundo turbulentísimo, apartado de Dios, con una geopolítica durísima que nos
aboca casi de manera impepinable a la III Guerra Mundial, salen autores como
Benson o como Michael O’Brien, que se han tomado el esfuerzo –y no digo que no
haya sido duro- de conjeturar acerca de cómo podrían ser las cosas. Y creo que es
por ahí por donde vienen los tiros.
¿Qué se puede decir? Lo que viene dista de ser fácil. La
persecución ya física contra los cristianos en muchas zonas del mundo (países
musulmanes en general, China, Vietnam, Cuba, etc.), se le une la persecución en
países occidentales, donde cada vez estamos más acorralados y asfixiados (EEUU,
Venezuela, Israel, Unión Europea, etc.). Lo lógico es esperar que tanto la
presión como la persecución (la física también) vayan a más en un futuro más o
menos cercano.
Bien. El Papa parece tener su propia opinión acerca de lo
que se viene y qué hacer. Y me encontré hace unos días con alguien que con
mejores palabras que las mías había sintetizado esto en un artículo titulado “La
opción monástica”.
Eso toca ahora: la opción monástica. Personalmente creo que
no hay otra.
Pero que nadie se engañe. Puede haber un mal trago. De hecho
va a haber un muy mal trago. La victoria que viene a continuación es la de
Cristo. Todo menos desesperar.
Rafael Castela Santos
segunda-feira, setembro 10, 2012
Por uma autêntica arquitectura sagrada cristã - a Catedral de Nossa Senhora de Fátima, em Karaganda, no Cazaquistão
Enquanto por cá os responsáveis da Igreja portuguesa continuam a elogiar - demonstrando assim as suas preferências estéticas de ruptura - a arquitectura religiosa personificadora da revolução litúrgica pós-conciliar, desde os inqualificáveis mamarrachos de betão armado construídos a partir dos anos 70 até à recente e inenarrável “Capela Árvore da Vida”, é bom constatar que, um pouco pelo resto do mundo, um cada vez mais vigoroso movimento artístico vai contrabalançando a tendência ainda prevalecente em Portugal, defendendo com primor os cânones da ortodoxia tradicional que devem nortear a autêntica arquitectura sagrada cristã e propondo projectos novos inteiramente inspirados por aqueles mesmos cânones.
Nesta última categoria, conforme o comprovam as fotografias aqui publicadas, inclui-se a recém-construída e consagrada Catedral de Nossa Senhora de Fátima, em Karaganda, no Cazaquistão, obra imbuída de um espírito de beleza, reverência e dignidade autenticamente católico, em boa parte fruto do exemplar labor episcopal desenvolvido por Monsenhor Athanasius Schneider naquela diocese da Ásia Central. Ora, com respeito à edificação desta catedral e ao que ela simboliza, convém reter as importantes palavras pronunciadas pelo insigne bispo em entrevista concedida à Agência Zenit, de que os nossos amigos do “Fratres in Unum” dão eco parcial abaixo transcrito:
A arte é seguramente um instrumento de evangelização eficaz, como nos recorda o Magistério, e o Santo Padre insta-nos e encoraja-nos para que a usemos. Pode contar-nos a sua experiência de promotor de obras, que tanta arte e tanta beleza quis na sua diocese como sinal do testemunho da fé católica?
A construção de uma nova catedral com uma estética verdadeiramente sacra e recheada com obras de arte é também uma proclamação daquele que é o primeiro dever da Igreja: dar a Deus, a Deus encarnado, o primeiro lugar, um lugar visível, pois Deus fez-se visível com a Encarnação e na Eucaristia; dar a Deus o primeiro lugar também no sentido de oferecer a beleza artística em sua honra, pois é Deus o autor de toda a beleza e merece receber em sua honra, da parte dos fiéis, obras verdadeiramente belas.
Além disso, uma catedral como esta pode ser uma concreta manifestação do terno amor de uma comunidade fiel, a esposa de Cristo, para com o Corpo de Cristo, que, em certo sentido, oferece em honra deste mesmo Corpo de Cristo a prodigalidade da mulher pecadora, que em honra de Cristo ofereceu aquele vaso de perfume precioso cujo preço era extraordinariamente grande («mais de trezentos denários», cf. Mc 14, 4). A fim de ungir o corpo de Cristo, a mulher pecadora gastou uma soma de dinheiro com a qual poderia sustentar uma família ao longo de um ano inteiro. As pessoas presentes indignaram-se diante de tamanho desperdício. Jesus, porém, louvou este santo desperdício dizendo: «Fez para comigo uma obra boa» (Mc 14, 6). Também hoje se deve continuar a fazer o “santo desperdício” para com Jesus.
Já visitaram a nova catedral muitas pessoas. Na maioria foram pessoas não católicas, e até mesmo não cristãs. Foram atraídas pela beleza e exprimiram de modo claro a sua admiração. Houve mesmo algumas mulheres não cristãs que até choraram de comoção à minha frente. Uma vez, durante meia hora, mostrei e expliquei a catedral a um jovem casal não cristão, com todos os pormenores da arte e das coisas sacras. Quando terminei e depois de sairmos da catedral, esta mulher não cristã disse-me: «Nesta meia hora purifiquei a minha ama. Posso vir cá outra vez sozinha? É que quero admirar no silêncio estas coisas belas?» Ao que eu respondi: «Certamente. Pode voltar todas as vezes que quiser.» Nessa meia hora, com a minha explicação de uma arte que é sacra e bela, consegui dar uma lição sobre a verdade da fé católica. A reacção de quase todas as pessoas que até agora visitaram a catedral, e especialmente das pessoas não cristãs, foi espontânea e neste sentido: admiração, silêncio, abertura ao sobrenatural. Constatei em todos estes casos que a verdade da alma humana é naturalmente cristã, como disse Tertuliano, isto é, Deus inscreveu na alma humana a capacidade para o conhecer e para o venerar. O dever dos católicos é o de conduzir estas almas, assim abertas em relação à fé e à adoração sobrenatural, para a adoração de Cristo, da Santíssima Trindade, é o de conduzir as almas para o céu. Nas grandes portas de bronze à entrada da catedral estão escritas estas palavras da Sagrada Escritura: «Esta é a casa de Deus, esta é a porta do céu» (Domus Dei-porta coeli). Estas palavras sagradas são, por isso, um mote muito adequado para esta catedral, isto é, para esta obra visível de evangelização, como o são também para toda a obra da evangelização.
sábado, setembro 08, 2012
quinta-feira, agosto 23, 2012
Intrinsecamente perverso
Confirma-se uma vez mais que o Papa Pio XI estava certíssimo no seu juízo sobre a ideologia comunista ateia.
No que respeita ao caso concreto da satânica experiência romena abordada por Michael Voris, e para quem queira aprofundar o conhecimento acerca da mesma, sugiro complementarmente a leitura do impressionante livro “O holocausto das almas”, da autoria de Gregori Dumitrescu, editado pela Antília Editora, no ano de 2008.
quarta-feira, agosto 22, 2012
Pela restauração da cultura católica
O “Roman Forum” referido no segundo programa foi fundado em 1968 por Dietrich von Hildebrand. No mesmo segundo programa, Michael Voris entrevista uma autêntica “equipa de sonho” da tradição católica: Brian Mccall, Christopher Ferrara, John Rao, Michael Matt, John Médaille, Hilary White e Monsenhor Ignácio Barreiro.
terça-feira, agosto 21, 2012
O aniversário que importa: os 450 anos do Concílio de Trento
Os restantes programas de Michael Voris dedicados ao glorioso Concílio de Trento podem ser vistos aqui, na Church Militant TV.
segunda-feira, agosto 20, 2012
A propósito de uma manifestação antitauromáquica
Por mero acaso, vi através da televisão as imagens de uma manifestação ocorrida ontem em Viana do Castelo, feita em protesto contra a realização de uma corrida de touros naquela cidade minhota. Reparei que entre os diversos cartazes empunhados pelos manifestantes, num se afirmava “Pelo fim dos crimes sem castigo!”, enquanto noutro se proclamava “Você escolhe, eles não!”, presumindo que “eles” são os touros de lide. Pensei para comigo: eis aqui dois belíssimos motes, susceptíveis de serem aplicados ainda com mais propriedade aos nascituros inocentes e indefesos, eliminados implacavelmente sem qualquer outra opção, por força do aborto, no próprio seio materno.
Estariam de tal factualidade cientes aqueles manifestantes? Estariam os mesmos, em coerência, dispostos a demonstrar igual empenho numa manifestação antiaborto? Ou suporiam antes que um touro de lide tem maior dignidade moral do que um nascituro? Julgariam porventura que uma lide taurina é acto moralmente mais grave do que o provocar a morte a um ser humano inocente e indefeso? É algo que dá que pensar, sobretudo a mim que nunca gostei de corridas de touros, que jamais assisti a uma corrida numa praça (fiquei-me por uma tourada à corda, na Ilha Terceira, nos Açores…) e que creio até ser a tauromaquia uma actividade em franco declínio, à qual a grande maioria dos portugueses fica indiferente.
quinta-feira, agosto 16, 2012
Uma boa análise
Os nossos bispos “conservadores”: por que odeiam eles tanto a Tradição em geral e a Missa de rito latino-gregoriano em especial?
quarta-feira, agosto 15, 2012
Assunção da Santíssima Virgem
O Senhor abençoou-te com a sua fortaleza, pois que, por teu intermédio, reduziu a quase nada os nossos inimigos. Abençoada és tu, minha filha, pelo Senhor, o Deus altíssimo, entre todas as mulheres da terra. Bendito seja o Senhor, criador do céu e da terra, que te levou a cortares a cabeça do chefe dos nossos inimigos. De tal maneira ele hoje glorificou o teu nome, que o teu nome não desaparecerá da boca dos homens, para sempre lembrados do poder do Senhor. Ao veres os sofrimentos e a amargura do teu povo, não quiseste poupar a tua vida; antes nos salvaste da ruína, sob o olhar protector do nosso Deus: Tu és a glória de Jerusalém, a alegria de Israel, a honra do nosso povo.
Epístola extraída do livro de Judite (13, 22-25 e 15, 10), lida a 15 de Agosto, no rito tradicional latino-gregoriano, por ocasião da Festa da Assunção da Santíssima Virgem .
Roberto de Mattei em português - "O Concílio Vaticano II - Uma história nunca escrita"
Depois da publicação de “Dominus Est”, de Monsenhor Athanasius Schneider, e de “Summorum Pontificum - Um problema ou uma riqueza?”, do Padre Manuel Folgar, com a edição de “O Concílio Vaticano II - Uma história nunca escrita”, de Roberto de Mattei, a Editora Caminhos Romanos está de novo de parabéns, por disponibilizar ao público leitor português (e, em especial, aos católicos) uma obra que está no centro do debate presentemente em curso no seio da Igreja Católica acerca da correcta compreensão, alcance e valor do Concílo Vaticano II, e que há não muito foi galardoada em Itália com o prestigiado Prémio Acqui Storia 2011. Leitura recomendadíssima!
terça-feira, agosto 14, 2012
Bernardes
Nos dias de hoje lê-se de tudo. Basta entrar numa livraria para nos depararmos com um número infindável de títulos que interminavelmente se vão renovando a uma velocidade vertiginosa. Ele são best-sellers, ele são prémios nobel, eles são escritores de há muito consagrados, eles são inovadores no estilo, nos temas, nas sensibilidades… A literatura como um maremoto implacável submerge-nos numa ansiedade que freneticamente bulímica quer estar a par de tudo, não descurando nada, pelo menos, daqueles inumeráveis autores que nos são solene e indiscutivelmente apontados como os melhores e os mais autorizados.
E, no entanto, é imensa a palha e as bolotas que nos apresentam como nutrimento intelectual e que por jejum rigoroso de excelência, deliberadamente desdenhada e oculta, nos sabem como delícias do chefe José Avillez.
Já me referi num outro texto ao conselho avisado do excelente escritor P. João Maia, SJ, sobre os livros e autores a ler e a reler: Homero, Dante, Cervantes, Shakespeare, Dostoievski e poucos mais. Hoje porém desejaria indicar alguns autores dotados de uma excelência singularíssima na arte de escrever, tanto na forma como no conteúdo, e que, estranhamente, muitos deles não são tidos em conta na generalidade das apreciações. De facto, como é possível ignorar a correspondência de S. Jerónimo, as obras de S. Cipriano de Cartago, de Tertuliano, de Lactâncio; e que dizer das Confissões ou da Cidade de Deus de Sto. Agostinho? Dos sermões de S. João Crisóstomo? Das Homilias de S. Pedro Crisólogo? Da Moralia in Job de S. Gregório Magno? Das cartas de S. Pedro Damião? Do comentário ao Cântico dos cânticos e aos escritos sobre a Virgem Maria de S. Bernardo de Claravalle? Das poesias e dos comentários aos Evangelhos de S. Tomás d’ Aquino? Da biografia de S. Francisco de Assis por S. Boaventura, do seu Itinerário da Mente em Deus? Do Cântico das criaturas do mesmo S. Francisco? Como é possível fazer tábua rasa das obras de S. João da Cruz? De Santa dos Diálogos de Santa Catarina de Sena? Das obras de Santa Teresa de Jesus? De Frei Luiz de Granada? De Frei Luiz de Leão? Do nosso Frei Luís de Souza? Do P. Manuel Bernardes? Dos Manuscritos Autobiográficos de Santa Teresa do Menino Jesus? Estes, e os mais que podíamos indicar, são desprezados pela intelligentzia contemporânea e mesmo eclesial e no entanto são os alicerces, os fundamentos do que somos como cultura. Felizmente, embora não aparecem nas estatísticas oficiais, muitas destas obras têm tido incomparavelmente mais leitores do que os best-sellers; infelizmente muitos os desconhecem cada vez mais tendo cada vez menos acesso a eles.
As obras do P. Manuel Bernardes, por exemplo, que foram durante muito tempo alimento literário e espiritual de gerações encontram-se esgotadas e não são reeditadas. A Lello que tinha o mérito de as ter editado (apesar dos erros e gralhas), com a grafia actual, em cinco volumes de papel bíblia, de há muito que as não reedita. Hoje, mesmo em alfarrabistas, é extremamente difícil topá-las. Provavelmente, a crítica ferozmente iníqua que Jorge de Sena e outros lhe dirigiram terá contribuído para isso. Castilho, injustamente votado ao esquecimento, provavelmente por causa da “questão coimbrã”, numa página em que só peca por ser demasiado severo para o P. António Vieira, compara Bernardes e Vieira:
“É Vieira sem contradição mestre guapíssimo de nossa língua, e o mesmo Bernardes assim o conceituava; que, porém, a si o propusesse como exemplar, nem o indica, nem consta, nem se pode com indução plausível suspeitar; eram ambos engenhosos no discorrer, puros e esmerados no exprimir; — eis aí a sua única semelhança; — no demais pareciam-se como entre si se podem parecer duas árvores de espécies diversíssimas.
Lendo-os com atenção, sente-se que Vieira, ainda falando do céu, tinha os olhos nos seus ouvintes; Bernardes, ainda falando das criaturas, estava absorto no Criador. Vieira vivia para fora, para a cidade, para a corte, para o mundo, e Bernardes para a cela, para si, para o seu coração. Vieira estudava graças a louçainhas de estilo; achava-as, é verdade, tinha boa mão no afeiçoá-las e uma graça no vesti-las como poucos; Bernardes era como estas formosas de seu natural que se não cansam com alindamentos, a quem tudo fica bem; que brilham mais com uma flor apanhada ao acaso, do que outras com pedrarias de grande custo. Vieira fazia a eloquência; a poesia procurava a Bernardes. Em Vieira morava o génio; em Bernardes o amor, que, em sendo verdadeiro, é também génio. Vieira sacrificava tudo à sua necessidade suprema, ao empenho de ser original e único; sacrificava-lhe a verdade, sacrificava-lhe a verossemelhança; sacrificava-lhe até a possibilidade; não hesitava em propor o princípio mais absurdo, como fosse ou parecesse novo, e como para lá não achava caminho pela lógica, fabricava-o com pontes sobre pontes, através de um oceano de sofismas, de argúcias, de puerilidades, de indecências, de quase heresias, e, contente de lá chegar por entre os aplausos, não se detinha a reflectir se não tinha sido aquilo um grandíssimo abuso da grande alma que Deus lhe dera, uma dúplice vaidade aos olhos da religião e da filosofia, um exemplo ruim, mais perigoso pelo agigantado de quem o dava. Bernardes não tomava tese que da consciência lhe não brotasse, e a desenvolvê-la aplicava todas as suas faculdades intelectuais, que eram muitas, e todas as faculdades morais que eram mais, tresdobradamente. Vieira zomba frequentes vezes da nossa credulidade, podemos desconfiar da convicção de Vieira, ainda quando nos fala certo; Bernardes é um amigo cândido e liso, que, ainda quando nos ilude, não nos mente.
Por tudo isso se admira Vieira: a Bernardes admira-se e ama-se.”
Também Camilo Castelo-Branco, de resto admirador incondicional de Castilho, nutria um carinho muito especial por Bernardes preferindo-o a Vieira.
Acresce que a suculenta e saborosa doutrina ascético-mística, presente nas obras de Bernardes, no seu essencial (tendo embora em conta a mudança dos tempos), é de muitíssimo proveito para as almas cristãs, em particular para Sacerdotes e Religiosos.
Antero de Quental grande amigo de Eça lamentava a sua pobreza de vocabulário e exortava-o a ler os Clássicos. Mais tarde Eça, em Paris, começará a ler Vieira (aliás o seu conto do enforcado é um desenvolvimento de uma narração de Vieira num dos seus sermões do Rosário) e confidencia-o a António Nobre pedindo-lhe que quando voltasse a Portugal recomendasse a todos a leitura dos seus sermões.
A literatura portuguesa, em grande parte, afastou-se de tal modo das suas raízes que nos dias de hoje um leitor comum deparar-se-á com uma enorme dificuldade em compreender e saborear um texto de Bernardes, de Vieira, de Luís de Souza, de Heitor-Pinto. E como lhe servem quotidianamente repasto de ruim qualidade pode inclusive sentir-se enjoado e mesmo tomar asco aos escritos dos autores referidos. Não se deixe porém vencer desistindo pois se for constante e persistir a recompensa será grande. Então encontrará palavras que lhe enchem a alma, que trazem dentro em si as realidades que significam possibilitando-lhe experiências e vivências de transcendência. Eça, não obstante, todo o mérito literário, faz da religião um ornamento, um mero elemento estético. Mesmo o Suave Milagre e a Vida de Santos, não obstante a sua beleza e o facto de representarem claramente um avanço e uma aproximação ao religioso, carecem de densidade e profundidade (Raúl Brandão nas suas Memórias refere que estando com Eça lhe viu bentinhos, medalhas religiosas, no pescoço).
Pelo contrário, quem conhece a obra de Camilo não estranhará os Clássicos nem a sua religiosidade pois que a linguagem dos seus textos está toda ela embebida dos escritos clássicos e religiosos, mesmo quando (ele ou o narrador) se atiça contra a Igreja ou mesmo quando blasfema. Será esta a razão do seu saneamento dos estudos de português? É verdade que nalgumas das suas obras ele recorre à linguagem religiosa para através dela incutir o contrário das suas verdades, por exemplo, a justificação do adultério.
Quanto mais aprofundo os textos e a vida do P. Manuel Bernardes mais me persuado da enorme conveniência de que seja mais conhecido e estudado. Desconfio mesmo que seja Santo, um Santo ainda não canonizado que pediu ao Senhor, com receio de perder a Graça da perseverança final, que o pusesse em estado de inocência antes da morte o que lhe foi concedido, salvo erro, dois anos antes de adormecer em Cristo. Como o pai de Santa Teresa de Lisieux, que também padeceu a mesma cruz, já beatificado, esperemos que Manuel Bernardes também o possa vir a ser.
segunda-feira, agosto 06, 2012
"Liturgy and Personality", de Dietrich von Hildebrand
Publicado originalmente em Março de 1943, “Liturgy and Personality” foi um dos primeiros livros escritos em inglês por Dietrich von Hildebrand depois da sua chegada aos Estados Unidos: trata-se de uma obra brilhante, na qual o seu autor discorre com enorme e intensa elevação espiritual acerca de um tema que lhe era caríssimo - o da liturgia católica, o da absoluta centralidade desta na vida cristã e de todos os efeitos benéficos que da mesma decorrem para quem a vive de forma integral e totalmente consciente. Hoje, decorridos quase setenta anos desde a sua publicação, “Liturgy and Personality” continua a ser uma notável apologia da liturgia da Igreja do Ocidente (uma das mais belas que já li), bem demonstrativa do verdadeiro amor que Dietrich von Hildebrand tinha - entre outras manifestações desta - à Missa Tradicional de rito latino-gregoriano (amor confirmado em pleno nos anos conturbados após o Concílio Vaticano II por um texto absolutamente fulcral como “The Case for Latin Mass”).
Ora, pelas razões acima indicadas, “Liturgy and Personality” é uma obra merecedora da atenta leitura por parte de todos os católicos tradicionalistas, ademais de na actualidade ser um magnífico repositório que lhes permite recapitular toda a essência, todas as razões profundas do combate em defesa da liturgia da tradição.
***
The Liturgy is pervaded with this spirit of awakeness. The Liturgy is a vigil in itself in the highest sense of the word and organically draws all who live in it into this spirit. In liturgical prayer, we emerge from the grip of our interests and worries, the tension centered in our labors, the immediate goals of practical life, the importunate “mincing” of being which the visible world offers; we emerge towards the great things that are eternally and invariably important, towards the mysterium Divinitatis, the mysterium Trinitatis, the mysterium Incarnationis, the mysterium misericordiae et caritatis, the magnalia Dei, the great deeds of God, the mystery of the Suffering Christ and the Eucharist. We emerge from the visible, not just to cast a fleeting glance on that world of mysteries, but to abide in it at length, believing, hoping, loving, thanking, praying, asking. All this, is the expressed accomplishment of awakeness. We sacrifice and pray during the Hours of the day, not in order to become awake but in order to glorify God. Yet this deep, broad stream of liturgical prayer before God is the actualization of being awake. Participation in the prayer of Christ means to be awake in the highest sense of the word. The performing of the Liturgy means also being awake to ourselves and our true metaphysical situation. Thanks to the Liturgy, we stand consciously where we objectively stand in truth. Here the cardboard houses of pride collapses; all the illusions of concupiscence, all repression, all flight from God and from oneself, all self-beguilement which is implied in turning away from the reality, all of this falls to pieces. Our sin, our guilt, our responsibility, death, which none of us can escape, the danger of eternal damnation, our nothingness before God, God’s infinite mercy, our redemption through the blood of Christ, all stand revealed before us. In the Liturgy which we perform through, with, and in Christ, who is eternal Truth, we are placed into Truth. All semblance and twilight are dispelled through Lumen Christi; all is laid bare in that light - ourselves, our condition, our vocation.
All earthly goods, our earthly actions and designs, are also placed in their right place in conspectus Dei. To be awake is not only extended to eternal things but also to transient and earthly ones. The Liturgy is in itself awakeness in the highest sense of the world, and it leads, moreover, all who live in it to being awake.
Dietrich von Hildebrand, in “Liturgy and Personality” - New York and Toronto, Longmans, Green and Co., Second edition, 1943 - páginas 120 a 122.
quarta-feira, julho 25, 2012
Sobre el comunicado de la FSSPX tras su Capítulo General
Muy atinado y recomendable el artículo
sobre las consecuencias del Capítulo General de la FSSPX que se ha
publicado en Religión en Libertad
recientemente. No dejen de leerlo, porque es enjundioso.
Sostiene allí Carmelo López-Arias, quien lo firma,
que pese a todas las aparentes contradicciones y obstáculos “insalvables”, se
da una situación actual que es mucho mejor que la existía en años previos. Y es
verdad:
“[S]e abre pues, ahora, un impasse que puede ser largo, pero
que puede resultar muy útil
para aproximar posiciones. Sería insensato que dos partes
(ciertamente no iguales en jerarquía, pero sí iguales en la firmeza de sus
posturas) que han mejorado significativamente su relación tras un delicado proceso
de años, den ahora un paso atrás para empeorarla sólo porque no han conseguido
coincidir del todo.”
Cabe, además, felicitar a Carmelo López-Arias,
porque él –antes del Capítulo General- sí que
acertó acerca de cómo podrían quedar las cosas. Les puedo decir a mis
lectores de A Casa de Sarto que yo sí di por hecho que se regularizaría a la
Hermandad, o este ciertamente era el ambiente optimista de la que nuestras
fuentes romanas nos hacían partícipes. Lo que estas fuentes no sabían era del
sabotaje que desde dentro de Roma misma se hizo a dicha potencial regularización al imponer
condiciones inaceptables a Monseñor Fellay.
Por nuestra parte, aunque nos tilden de polémicos,
seguimos
manteniendo lo que dijimos en una entrada anterior nuestra (salvo el error
que me han señalado, y cuya corrección por supuesto acepto, de haber dicho que
Monseñor Pozzo era Presidente de Ecclesia Dei, cuando en realidad era
Secretario, y que el Presidente de la misma era el Cardenal Levada). Créanme
que no tengo la más mínima intención de ser polémico. Tan sólo de compartir
algunas reflexiones personales con Vds, que no puede ser otro el propósito de
esta bitácora, y que les puedan servir para orientarse mejor y disponer mejor
sus almas en aras a la salvación. Ni más ni menos.
El comunicado
de la FSSPX posterior al Capítulo General es tremendamente claro y tiene
muchos elementos positivos. De entrada se ha conjurado el peligro de escisión
interna, algo enormemente deseado por los enemigos de la Tradición, tanto en
Roma como fuera de ella. Escisión en la que hubo mucho tonto útil, dicho sea con todo el respeto, dentro de la Hermandad, no dudo que muchas veces sin tal intención. Dicho comunicado empieza congratulándose por la recuperación
de la unidad; recuperación obtenida por la reafirmación de los principios
básicos que unen a los más de 500 Sacerdotes que constituyen la FSSPX. Unidad
amenazada últimamente por los pecados de algunos de sus miembros: sedición,
calumnia, imprudencia grave, negligencia también grave y hasta traición. Entre
otros. No importa: parece que ahora las aguas han retornado al cauce de la paz,
la serenidad y el compromiso firme en los objetivos que dieron origen a la
FSSPX y que –lamentablemente- siguen estando más vigentes que nunca. El propio
comunicado así lo reconoce al constatar la realidad de este mundo moderno, que
se aleja cada vez más de Dios, y la no erradicación de errores básicos como la
no afirmación de la Realeza Social de Nuestro Señor Jesucristo, la colegialidad
o la libertad religiosa con su peligroso hijo del ecumenismo. Todos estos
mencionados explícitamente en dicho comunicado.
Un excelente
análisis de las implicaciones del Capítulo General y el comunicado que le
siguió fue realizado por Brian McCall en The Remnant. A él me remito, porque
aunque pueda discrepar en algún punto particular o algún matiz, creo que es muy
sensato y bien merece tenerse en cuenta. Me gusta la comparación de McCall del
trípode revolucionario: Libertad (la religiosa, triturando el principio de Extra
Ecclesia, nulla salus), Igualdad (la no-Realeza de Nuestro Señor Jesucristo,
Él es sólo “uno más”) y Fraternidad (la colegialidad episcopal versus la
monarquía templada del Santo Padre). La afirmación de la autoridad del Papa,
como principio, es formidable. De hecho muchos “católicos” no harían tal
afirmación y su espíritu está inclinado hacia sabotear dicha autoridad. Empero
cabe plantear como crítica a McCall –y a la Hermandad de San Pío X- lo que bien
explica La Honda de David,
quien reconociendo que si bien la Verdad está del lado de la FSSPX, hay
un problema con exigir la vuelta a la Tradición de Roma de manera íntegra como
condición previa y a priori:
“Lo que no es
legítimo (en el sentido de legal y no en el de la conveniencia) es pedir la ‘conversión
de Roma’. Es ultrapetita, es decir,
va más allá del objeto de lo que se peticiona que es la continuidad de la
Tradición y es ponerle un límite a la autoridad del Pontífice. Como decir que
un padre pierde su potestad porque es pecador y esperar a su corrección para
obedecerle en lo que no ofende la ley de Dios o no es arbitrario.”
Y creo que
La Honda de David tiene razón. Y
también creo que, a veces, hay algunos conceptos eclesiológicos en la FSSPX que
me chirrían un poco.
Ahora bien, un punto que sí merece consideración
aparte es que la FSSPX traiga en su comunicado un tema aparentemente “lejano”
al Capítulo General y lo que allí se ha estado dirimiendo. Me refiero al tema
de los cristianos perseguidos.
No voy a entrar en lo que es de sobra conocido: la
situación de los cristianos en el Oriente Medio, en particular en los países “liberados”
por los occidentales últimamente, como Irak, Túnez, Egipto o Libia y,
próximamente, Siria. O en los países sunnitas. O en Israel, con sus matices,
tan unido a esos países sunnitas en tiempos muy recientes. O en Sudán del sur,
vuelto a ser militarmente atacados los cristianos. O en Nigeria. O en Kenia. O
en Tanzania y otros muchos lugares de África. O el hostigamiento a los
católicos, quizás incruento frente al cuerpo pero terriblemente lesivo para el
alma, que se da en los Estados Unidos o en esta maldita Unión Europea. O la
situación de los católicos en el mundo comunista: China, Cuba, Vietnam, etc. La
persecución a los cristianos se está haciendo extensiva en todo el mundo y de
mayor intensidad. Negar esto es negar la realidad.
La Hermandad de San Pío X ha considerado oportuno
unirse a estos millones de cristianos perseguidos por causa de su Fe. Y liga
esta afirmación con la del sufrimiento del Cuerpo Místico de Nuestro Señor
Jesucristo y con la esperanza que estas muertes, estos martirios sangrientos y
también los secos, sirvan para hacer crecer dicho Cuerpo Místico. La FSSPX
adopta aquí un planteamiento apocalíptico del que me alegro, porque es necedad
querer ver la realidad circundante con otro prisma. Quizás, también, en consideración
anticipada de la persecución terrible que sobre el pusillus grex se avecina, y
que la Hermandad bien representa.
La situación actual invita poco al optimismo con
respecto a una posible regularización. En este último paso la mala voluntad de
Roma ha sido patente. Quizás ciertos aspectos necesitan ser todavía madurados por ambas partes. Pero hay una pequeña puerta abierta a la esperanza. Insisto:
no todo está perdido. Para ello, remarca
Carmelo López-Arias en Religión en Libertad, quién puede ganar la partida:
“[E]l tiempo, en este caso, corre a favor de
quien piensa, no de quien se agita”.
Y, mucho me temo, aquí ha habido mucho agitado. Los
hombres de Dios saben bien que lo que conlleva agitación no puede venir de
Dios.
A seguir rezando. En paz, sin agitación, con
abundancia de silencio. Aunque sea el martirio (y dado el odio y la saña de los
enemigos de Cristo hoy día no deberíamos contar con que este martirio vaya a
ser mínimamente humano) lo que nos aguarde.
CODAS: (1) Y siguen pasando las semanas, una tras otra,
y el Santo Padre sin hacer el más mínimo gesto de querer consagrar Rusia al
Inmaculado Corazón. (2) ¿Se han fijado en el auge del comunismo en el mundo? Ambos
hechos, también, son apocalípticos. (3) No menos me parece el nombramiento de Müller para la Doctrina de la Fe. Pareciera más bien un caso de zorra a la que se pone a guardar el gallinero.
Rafael Castela Santos
domingo, julho 15, 2012
"A Casa de Sarto" no "Religión en Libertad"
A propósito do artigo que neste espaço dedicámos a “Um Cântico a Leibowitz”. Agradecemos honrados o destaque que nos foi concedido. É bom termos leitores assim!
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