terça-feira, abril 03, 2012

Perplexidade

Apesar de ser favorável à regularização do estatuto canónico da Fraternidade de São Pio X no seio da Igreja institucional, nem por isso deixo de ficar perplexo com a severidade e dureza extremas com que Roma, fazendo-lhe todo o tipo de exigências e imposições, continua a tratar a mesma Fraternidade, a qual, de resto, jamais negou qualquer verdade de fé ou moral católicas, nem nunca contestou os magistérios extraordinário e ordinário constante da Igreja. Isto por total contraposição ao modo absolutamente passivo e permissivo - desprovido de qualquer censura atempada, efectiva e eficaz - com que também Roma continua a encarar a actuação desestabilizadora e subversiva dos infiltrados da anti-Igreja no seio do Catolicismo. Como o comprovam, mais uma vez, estes tristes casos (ler aqui e aqui), bem demonstrativos de uma crise eclesial que teima em persistir...

domingo, abril 01, 2012

Segundo Domingo da Paixão (Domingo de Ramos) - II


E a alma, que há-de fazer? O corpo, imitar; a alma, meditar: o corpo com os ramos da palma, a alma com os da oliveira. A alma nestes santos dias há-de fazer do coração um Monte Calvário, levantar nele um Cristo crucificado, e pôr-se desta maneira a contemplar suas dores. Oh! quem pudera explicar-se agora com o pensamento, e falar com o silêncio! Quando os amigos de Job o foram visitar nos seus trabalhos, diz a Escritura Sagrada que estiveram uma semana inteira olhando só para ele, sem falarem palavra. Assim o hão-de fazer nossas almas esta semana, se são amigas de Jesus: olhar, calar e pasmar. Oh! que vista! Oh! que silêncio! Oh! que admiração! Oh! que pasmo! Só três coisas dou licença a nossas almas que se possam perguntar a si mesmas no meio desta suspensão. Quem padece? Que padece? Por quem padece? E que meditação esta para uma eternidade!

Quem padece? Deus, aquele ser eterno, infinito, imenso, todo poderoso, aquele que criou o céu e a terra com uma palavra, e o pode aniquilar com outra; aquele, diante de cujo acatamento, os principados, as potestades e as dominações, e todas as hierarquias estão tremendo. Este Deus, cuja grandeza, este Deus, cuja majestade, este Deus, cuja soberania incompreensível só ele conhece inteiramente, e todos os entendimentos criados com infinita distância de nenhum modo podem alcançar, este, este é o que padece. Aqui se há-de fazer uma pausa, e pasmar. São Bernardo, cheio de pasmo e assombro nesta mesma consideração, rompeu dizendo: Ergo ne credendum est, quod iste sit Deus, qui flagellatur, qui conspuitur, qui crucifigitur? É possível que se há-de crer que este, que padece tantas injúrias e afrontas, e a mesma morte, é aquele mesmo Deus imortal, impassível, eterno, que não teve princípio, e é o princípio e fonte de todo ser? Este, este é; que nem ele fora Deus, nem a nossa fé fora fé, se ela não fizera, e nós não crêramos o que excede toda a capacidade humana. Por isso Isaías, quando entrou a falar da Paixão, como profeta que sobre todos era o mais eloquente, o exórdio por onde começou, foi aquela pergunta: Quis credidit auditui nostro? Quem haverá que dê crédito ao que há-de ouvir de minha boca? Tão alheio é quem padece do que padece, e este é Deus. Vede se há bem de que pasmar aqui.

Depois de considerarmos que é Deus quem padece, então se segue a consideração do que padece. E não só havemos de trazer à memória o que já vimos que padeceu exteriormente em todos os sentidos do corpo, mas muito mais devemos considerar e ponderar o que padeceu no interior da alma e em todas suas potências. Com dois nomes, ou com duas semelhanças nos declarou nosso amorosíssimo Redentor o que padeceu em sua Paixão, com nome e semelhança de cálix, quando disse a S. Pedro: Calicem, quem dedit mihi Pater, non vis ut bibam illum? O cálix que me deu meu Padre, não queres que o beba? E com nome e semelhança de Baptismo, quando disse a todos os discípulos: Baptismo habeo baptizari, et quomodo coarctor usque dum perficiatur? Eu hei-de ser baptizado em um baptismo, o qual desejo com grandes ânsias e aperto do coração até que chegue. De sorte que declarou o Senhor o que havia de padecer por nós, já chamando-lhe cálix, já baptismo, e por quê? Porque o baptismo recebe-se por fora, o cálix bebe-se por dentro, e Cristo, Redentor nosso, em toda sua Paixão não só padeceu por fora os martírios do corpo, senão também, e muito mais, por dentro os tormentos da alma. Por fora padeceu os tormentos dos açoites, dos espinhos, dos cravos, da lança, que o banharam todo em sangue, e por isso lhes chamou Baptismo; por dentro padeceu as tristezas, os tédios, os temores, as angústias e agonias, que, sem ferro, lhe tiraram também sangue no Horto, e lhe penetravam mortalmente a alma: Tristis est anima mea usque ad mortem (10).

Oh! quem pudesse entrar profundamente no interior da alma de Jesus, e entender o que naquele consistório sacratíssimo e secretíssimo das suas três potências passava e se conferia em tantas horas! A memória, desde o princípio do mundo representava os pecados de todos os homens, por quem satisfazia a divina justiça; o entendimento ponderava o pouco número dos mesmos homens que se haviam de aproveitar do preço infinito daqueles tormentos, e a vontade se desfazia com dor de ver perder tantas almas por sua culpa, sem achar consolação alguma a tamanha perda; e esta era a tristeza que ocupava toda a alma do Salvador, e com três cravos mais agudos e penetrantes a crucificava. Aqui havemos de fazer a segunda pausa, e pasmar tanto daquele infinito amor, como da nossa infinita cegueira. Oh! Senhor, quantos pode ser que vísseis então, dos que agora se acham nesta mesma igreja, que, por que haviam de desprezar e condenar as suas almas, agonizavam a vossa! Considere cada um se porventura, ou eterna desventura, é algum destes, e veja bem o seu perigo, enquanto tem tempo.

Este é o Deus que padece, estas as penas e dores que padece, e só resta ver por quem padece. Se a fé me não ensinara outra coisa, cuidara eu que padecia Deus pelo céu, porque vejo o sol eclipsado e coberto de luto; cuidara que padecia pela terra, porque a vejo tremer e arrancar-se de seu próprio centro; cuidara que padecia pelas pedras, porque as vejo quebrarem-se umas com outras e abrirem-se as sepulturas; cuidara que padecia pelo Templo de Jerusalém, porque vejo rasgar-se de alto a baixo o véu do Sancta Sanctorum; cuidara que padecia por este mundo elementar, porque vejo confusos, perturbados, atónitos e com prodígios de sentimento e assombro todos os elementos. Mas não são estas as criaturas por quem padece Deus, posto que todas confessam que padece seu Criador; e, com serem irracionais e insensíveis, quiseram acabar com ele quando o vêem morrer. Quem são logo aqueles por quem padece o Autor da natureza, e por quem morre o Autor da vida? Sou eu, sois cada um de vós, e somos todos os homens. Por nós, e só por nós padece Deus; por nós, e só por nós padece quanto padece. Por nós que, depois de nos criar, o não respeitamos; por nós que, depois de nos sustentar, o não servimos; por nós que, depois de nos remir, o não obedecemos; por nós que, depois de morrer por nosso amor, o não amamos; por nós que, depois de se pôr em uma cruz por nós, o tornamos a crucificar mil vezes; por nós que, esperando-nos assim, e chamando-nos com os braços abertos, não queremos acudir a suas vozes; por nós, enfim, que, sabendo que nos há-de julgar, e nos prometeu o céu, se o não ofendermos, queremos antes o inferno sem ele, que o céu com ele. Isto é o que faz todo o homem que peca mortalmente, e isto o que continua a fazer enquanto se não tira do pecado, para que vejais se tem razão, não só de pasmar, mas de perder o juízo.

Padre António Vieira, in “Sermão de Dia de Ramos”, pregado na Matriz do Maranhão, no ano de 1656

Segundo Domingo da Paixão (Domingo de Ramos) - I


Acabemos de nos desenganar, antes que se acabe o tempo: Ecce nunc tempus acceptabile. Acabemos de tratar da salvação, antes que se fechem as portas da misericórdia: Ecce nunc dies salutis. Ou fazemos conta de nos converter deveras a Deus alguma hora, ou não: se não fazemos esta conta, para que somos cristãos? Por outro caminho mais largo podíamos ir ao inferno. Mas se nenhum há tão rematadamente inimigo de sua alma, que ao menos não tenha tenção de algum dia a tirar do poder do demónio e a dar a Deus, quando há-de ser este dia? Que dia, ou que dias mais a propósito podemos ter ou esperar que estes da Semana Santa? Que dias mais a propósito para pedir a Deus perdão dos pecados, que aqueles mesmos dias em que Deus se pôs em uma cruz por meus pecados? Que dias mais a propósito para alcançar e ter parte nos merecimentos do sangue de Cristo, que os dias em que se está derramando o mesmo sangue? Agora, agora, e não depois, é o tempo aceito a Deus: Ecce nunc tempus acceptabile. Estes dias, estes, e não os futuros, incertos e enganosos, são os dias da salvação: Ecce nunc dies salutis.

Suposto pois, cristãos, que este é o tempo, e suposto que os dias são tão precisos que não temos outros para que apelar, o que resta é recuperar o perdido, e que nos aproveitemos deles com tais actos de verdadeira contrição e devoção, que esta Semana Santa, como o é em si, seja em nós também santa. Os ramos que cortaram das árvores os que hoje saíram a receber a Cristo: Caedebant ramos de arboribus, posto que São Mateus não declare quais fossem, São João diz que eram de palma, e São Lucas de oliveira. E com os dois afectos que estes ramos significavam, devemos nós seguir e acompanhar o Senhor em todos seus passos, oferecendo estes humildes obséquios a seus sacratíssimos pés, que isto quer dizer: Et sternebant in via. A palma é símbolo da paciência, como a oliveira da misericórdia e compaixão; e tais eram os dois mistérios que encerrava o aparato e diferença daqueles ramos: padecer e compadecer. Desta maneira receberemos e acompanharemos a nosso bom Rei e Redentor muito melhor que a ingrata e inconstante Jerusalém, se não só hoje, mas todos estes dias padecermos alguma coisa com ele, e nos compadecermos dele. Tudo resumiu São Paulo a uma só palavra, quando disse: Si tamen compatimur. Uma coisa é compadecer, e outra padecer com: compadecer, é compadecer dele; padecer com, é padecer com ele; e tanto nos merecem a paciência as suas penas, como a compaixão o seu amor. Toda a sua sagrada humanidade do corpo e alma de Cristo nos mereceu sempre muito, mas nunca tanto como nestes dias: padecendo na imitação de seus tormentos, acompanharemos seu santíssimo corpo, e compadecendo-nos na meditação de suas dores, acompanharemos sua santíssima alma.

Digo pois, quanto ao corpo, que havemos nesta semana de procurar padecer alguma coisa em todos os cinco sentidos, assim como Cristo padeceu em todos. Adão e Eva, em um só pecado, pecaram com todos os cinco sentidos. Pecaram com o ouvir, ouvindo a serpente; pecaram com o ver, olhando para a fruta; pecaram com o palpar, tirando-a; pecaram com o cheirar, cheirando-a; pecaram com o gostar, comendo-a. Com todos os cinco sentidos pecaram nossos primeiros pais, e nós, tão herdeiros de suas misérias como de suas culpas, em todos pecamos infinitas vezes. E como Cristo vinha pagar pelo pecado de Adão e pelos nossos, quis padecer também em todos os cinco sentidos.

Padeceu no sentido de ver, vendo fugir a todos seus discípulos: vendo que um o entregou tão aleivosamente; vendo que outro o negou três vezes; vendo-se atar e levar preso, e a tantos tribunais; vendo-se tapar os olhos; vendo-se despir no Pretório, e estar despido no Calvário tantas horas à vista de todo o mundo, e no meio de dois ladrões; sobretudo, vendo a desconsolada Mãe ao pé da cruz, em cujo coração e em cujos olhos estava outras três vezes crucificado. Finalmente, vendo os meus pecados e os vossos, com que tão ingratos haviamos de ser a tanto amor, que todos naquela hora lhe eram presentes.

Padeceu no sentido do ouvir, ouvindo o Deus te salve aleivoso da boca de Judas; ouvindo os crimes e testemunhos falsos com que foi acusado; ouvindo as vozes e brados com que os mesmos que hoje o aclamaram rei lhe pediam a morte; ouvindo a sentença com que o iníquo juiz o entregou à vontade de seus inimigos; ouvindo o pregão de malfeitor e alvorotador do povo; ouvindo as injúrias e blasfémias dos príncipes dos sacerdotes na cruz, e as dos mesmos ladrões que com ele estavam crucificados, e não ouvindo em todo este tempo uma só palavra de consolação aquele mesmo Senhor que com palavras e obras tinha consolado a tantos.

Padeceu no sentido do olfacto, ou de cheirar, porque morreu entre os ascos e horrores do Monte Calvário, chamado assim das caveiras e ossos dos malfeitores que ali se justiçavam, os quais, ou porque os enterravam mal os algozes, ou porque depois os desenterravam os cães, estavam espalhados por todo o monte, e de mistura com a corrupção do sangue faziam aquele infame lugar horrendo, hediondo, asqueroso e insuportável ao cheiro. E como divino pagador de nossos pecados, não só escolheu o género da morte, senão também a circunstância do lugar; para satisfazer nele pelos excessos do olfacto, quis que fosse tão infeccionado e malcheiroso.

Padeceu no sentido do gosto, não só pelo fel e vinagre que lhe deram a beber, senão muito mais por aquela ardentíssima sede, maior incomparavelmente que todos os outros tormentos, porque só ela obrigou ao pacientíssimo Redentor a pedir alívio. Mas podendo mais o desejo de padecer por nós, que a força da natureza na humanidade enfraquecida e exausta, provou o azedo do vinagre e o amargoso do fel, para mortificar o gosto, e não quis levar para baixo o húmido, para não moderar o ardor nem aliviar a sede.

Padeceu, finalmente, no sentido do tacto, não ficando em todo o sagrado corpo parte alguma que não fosse martirizada com particular tormento. Padeceu nos braços as cordas e cadeias, no rosto as bofetadas, na cabeça a coroa de espinhos, nos ombros o peso da cruz, nas costas os milhares de açoites, nas mãos e nos pés os cravos, e em todos os ossos, em todos os nervos, em todas as veias, em todas as artérias a suspensão, a aflição, a violência mais que mortal de estar três horas no ar pendente de um madeiro até expirar nele.

Pois, se estes são os dias em que o meu Deus padeceu tão cruelmente em todos os cinco sentidos, e tão amorosamente por mim, não será justo que eu também em todos os sentidos padeça alguma coisa por ele? Nenhum coração me parece que haverá tão ingrato e tão insensível, que se não deixe mover desta razão: Hoc enim sentite in vobis, quod et in Christo Jesu, diz São Paulo: O que Cristo Jesus sentiu em si, devemos nós sentir em nós - ele por amor de nós, e nós por amor dele. E se a vossa devoção deseja saber e me pergunta de que modo poremos em prática este recíproco sentimento, mortificando-nos também em todos os nossos sentidos, digo primeiramente que mortifiquemos o ver, andando nestes dias com grande modéstia e recato, e negando aos olhos as vistas de todas as criaturas, e apartando-os principalmente daquelas que mais nos agradam e mais nos apartam de Deus. Os olhos têm dois ofícios: ver e chorar; e mais parece que os criou Deus para chorar que para ver, pois os cegos não vêem e choram. Já que tantos dias damos aos olhos para ver, já que tão cansados andam os nossos olhos de ver, não lhes daremos alguns dias de férias, para que descansem em chorar? Chorem os nossos olhos os nossos pecados nestes dias, e chorem muito em particular o não haverem antes cegado que ofendido a Deus. Ah! Senhor, quanto melhor fora não ter olhos, que ter-vos ofendido com eles!

O sentido de ouvir mortificá-lo-emos, retirando-nos esta semana de todas as práticas e conversações, não só ilícitas e ociosas, mas ainda das lícitas. Troquemos o ouvir pelo ler, lendo todos estes dias algum livro espiritual em que Deus nos fale e nós o ouçamos. A quem não está muito exercitado no orar, é mais fácil o ler, e muitas vezes mais proveitoso. Na oração falamos nós com Deus; na lição fala Deus connosco. E de quantas coisas - que fora melhor não ouvir - ouvimos todo o ano aos homens; estes dias ao menos, bem é que ouçamos a Deus.

No sentido do olfacto pouco têm que mortificar os homens nesta terra, porque não vejo nela este vício. Nas mulheres, se nelas há alguma demasia, lembrem-se de que nesta semana derramou a Madalena os seus cheiros e os seus unguentos aos pés de Cristo. E para os aborrecerem e detestarem para sempre, saibam que a última disposição da morte do mesmo Senhor foram estes cheiros. Porque a Madalena derramou os unguentos, se excitou a cobiça de Judas; porque em Judas se excitou a cobiça, tratou da venda; porque vendeu a seu Mestre, o prenderam e o mataram. Por isso o Senhor disse - e este é o sentido literal: Mittens haec unguentum hoc in corpus meum, ad sepeliendum me fecit, como se dissera: Estes unguentos são para a minha sepultura, porque destes unguentos se me há-de ocasionar a morte.

O sentido do gosto, ainda que se tenha mortificado por toda a Quaresma com o jejum ordinário, nestes dias é bem que haja para ele alguma particular mortificação. Muitos santos do ermo passavam esta semana inteira sem comer, e pessoas de mui diferente estado, não no ermo, senão nas cortes, passam em jejum de quinta-feira até sábado. Nos maiores dias desta semana é estilo das mesas dos grandes príncipes não se porem nelas mais que ervas; para estes dias se fizeram propriamente os jejuns de pão e água: ao menos estes dias não são para regalo. O cordeiro mandava Deus que se comesse com alfaces agrestes, porque o agreste e desabrido no comer destes dias é a melhor disposição para comer quinta-feira o Divino Cordeiro sacramentado.

O sentido do tacto, como o mais vil e mais delinquente que todos, é razão que seja nestes dias mais mortificado. Quando Urias veio do exército com aviso a el-rei David, disse-lhe o rei que fosse descansar à sua casa. E ele, que respondeu? E bem, Senhor: está o meu general dormindo sobre a terra na campanha, e eu que me haja de deitar em cama? Não farei tal desprimor. E foi-se deitar em uma tábua no corpo da guarda. A cama em que dormiu o último sono da morte o nosso Jesus, bem sabeis qual foi. Pois, será justo que quando ele tem por cama o duro madeiro da cruz, descanse o nosso corpo tão regaladamente como nos outros dias? Alguma diferença é bem que haja nestes. Ao menos o nosso rei e seus filhos, de quinta-feira até domingo não se deitam em cama, nem se assentam, senão no chão, assistindo sempre ao Senhor, sem sair nunca da Capela Real, nem de dia, nem de noite. Estas são as noites e os dias para que se fizeram as penitências: para estas noites se fizeram os pés descalços, para estas noites as disciplinas, e para estes dias e para estas noites os cilícios. Que poucos cilícios deve de haver no Maranhão? Não vos escuseis com isto.

Padre António Vieira, in “Sermão de Dia de Ramos”, pregado na Matriz do Maranhão, no ano de 1656

Uma confissão

De Juan Manuel de Prada. Faço-a minha. Numa altura em que também por cá o governo adopta uma nova legislação laboral, mais inspirado em motivos de puro desforço ideológico liberal, do que em quaisquer razões sérias de eficácia económica.

***

Leo en ABC que un artículo mío sobre la «liberalización completa» de los horarios comerciales promovida por Esperanza Aguirre «ha provocado numerosas y encendidas reacciones». Ocurre esto poco después de que un amigo me advirtiera que mis artículos de asunto socio-económico eran leídos con preocupación desde altas instancias, por «hallarse a un paso de las tesis marxistas»; cosa que me perturbó sobremanera, pues en tales artículos no hago sino divulgar los principios de la doctrina social de la Iglesia. Ignoro si se halla a un paso de las tesis marxistas afirmar que es anticristiano ligar salarios y productividad, o condenar la emergencia de un nuevo poder tiránico, fundado en la concentración del dinero, que llega a convertir a los Estados en marionetas a su servicio; pero esto es exactamente lo que hace Pío XI en Quadragesimo Anno, mi encíclica predilecta de asunto social; en la que, por cierto, se contienen execraciones vigorosísimas del socialismo.

Yo crecí en una familia católica y, llegada la adolescencia, dejé que aquel caudal se esclerotizara dentro de mí; quiero decir que me convertí en uno de tantos católicos rutinarios e inertes que, sin apostatar de la fe, se vuelven sal sosa. En la juventud volví a acercarme, con interés inquisitivo, a la fe de mis mayores: al principio, intrigado al comprobar que la Iglesia era la diana más concurrida por las invectivas de los llamados «intelectuales»; luego, como a Chesterton, me ocurrió que en la Iglesia descubrí «un continente lleno de extrañas flores y animales fantásticos, a la vez salvaje y hospitalario». Penetrar en aquel continente, «vislumbrar grandes ideas que permanecían escondidas por los prejuicios ambientales», fue también para mí, como para Chesterton, una gran dicha. Y decidí quedarme allí, aun a sabiendas de que «la única herejía imperdonable en nuestro tiempo es la ortodoxia». Mi temor, en este regreso del hijo pródigo, era que la fe religiosa estrangulara o asfixiara mi libertad; pero pronto descubriría, como señala Chesterton, que «cuando uno ha entrado en la iglesia, siente que es mucho más espaciosa por dentro que por fuera». La Iglesia, en efecto, es una casa con cien puertas; y nadie entra exactamente por la misma.

Este regreso a la Iglesia me liberó de la «degradante esclavitud de ser un hijo de mi tiempo». Me enseñó que las ideologías son las verdaderas cárceles que estrangulan y asfixian la libertad humana, porque al fin y a la postre todas se fundan en «las viejas virtudes cristianas que se han vuelto locas», desgajadas del núcleo común que las nutre. Frente a la visión escindida de la realidad que me brindaban las ideologías, descubrí que el depósito de sabiduría acumulada por la Iglesia me permitía dar respuesta no sólo a las realidades sobrenaturales, sino también a las naturales, ya fuesen de índole política, social o económica. Esta derrota del «dualismo» que hasta entonces me había corrompido —un dualismo que separa el plano natural del sobrenatural— fue para mí un gran gozo intelectual; y entonces noté que mi libertad, lejos de morir víctima del estrangulamiento o de la asfixia, se expandía como nunca antes lo hubiese soñado. Descubrí, por ejemplo, que defender la vida y la familia no tenía demasiado sentido, si al mismo tiempo no se defendía una concepción del trabajo que permitiese a la gente criar dignamente a sus hijos y dedicarse a su familia. Y toda forma de trabajo que dificulte o impida esta misión primordial, imponiendo una concepción mecanicista del hombre y de las relaciones económicas, me parecerá siempre anticristiana, ya la impulsen Aguirre, Rajoy o el sursuncorda.

sábado, março 24, 2012

Primeiro Domingo da Paixão (Quinto Domingo da Quaresma)

Mas vejo que ainda há quem repugne ou, quando menos, duvide e pergunte como pode ser e se pode dizer, com verdade, que nós os cristãos e católicos, não cremos a Deus? Para nós não há outra fé, nem outra autoridade, nem outro oráculo infalível, senão o da palavra divina. Logo, como não cremos a Deus? O mesmo Deus respondeu já a esta dúvida, e nos deu uma regra certa, por onde conheçamos sem engano, se o cremos a ele, ou não. Cuidamos que cremos a Deus, e enganamo-nos. Mas qual é a regra? Qui crediti Deo, attendit mandatis: Sabeis quem crê a Deus? - diz o Espírito Santo: Quem faz o que Deus lhe manda. Se fazeis o que Deus manda, credes a Deus; se não fazeis o que ele manda, não o credes a ele: credes-vos a vós, credes ao vosso apetite, credes ao diabo, como creu Eva. Por isso dizia Davi: Quia mandatis tuis credidi: Eu, Senhor, cri aos vossos mandamentos. Isto é só o que é crer a Deus. A nossa fé pára no Credo, não passa aos Mandamentos. Se Deus nos diz que é um, creio, se nos diz que são três pessoas, creio; se nos diz que é criador do céu e da terra, creio; se nos diz que se fez homem, que nos remiu, e que há-de vir a julgar vivos e mortos, creio. Mas se diz que não jureis, que não mateis, que não adultereis, que não furteis, não cremos. Esta é a nossa fé, esta a vossa cristandade. Somos católicos do Credo, e hereges dos Mandamentos. Vede se se deve contentar Cristo com tal invenção de crer, e se tenho eu razão de pregar que cremos em Cristo, mas não cremos a Cristo: Non creditis mihi.

E para que esta verdade, que só está provada em comum, se veja com os olhos e se apalpe com as mãos, desçamos a exemplos particulares, e, ponhamo-los, para maior clareza nas matérias mais familiares e usuais, ainda da conveniência do interesse, do gosto.

Que homem há, senhores, que não busque o descanso? Este é o fim que se busca e que se pretende por todos os trabalhos da vida. O soldado, pelos perigos da guerra, busca o descanso da paz. O mareante, por meio das ondas e das tempestades, busca o descanso do porto. O lavrador, pelo suor do arado, o estudante, queimando as pestanas, o mercador, arriscando a fazenda, todos, como diversos rios ao mar, correm a buscar o descanso, que é o centro do desejo e do cuidado. E houve algum homem tão mimoso da fortuna neste mundo, que em alguma, ou em todas as coisas dele, achasse o descanso que buscava? Nenhum. Saiu a pomba da Arca, e diz o texto sagrado que já ia, já tornava, já tomava para uma parte, já para outra, e que não achava onde descansar: Cum non invenisset ubi requiescere pes ejus. Primeiro lhe cansaram as asas, do que achasse onde descansar os pés. E por que não achava a pomba onde descansar? Porque buscava o descanso onde o não havia. As cidades, os campos, os vales, os montes, tudo era mar. Este é o mundo em que vivemos. Antes e depois de Noé, sempre foi dilúvio. Uns para uma parte, outros para outra, todos cansando-se em buscar o descanso, e todos cansados de o não achar. A razão deu S. Agostinho no Livro Quarto dos seus desenganos, a que ele chamou Confissões: Non est requies ubi quaeritis eam: quaerite quod quaeritis, sed ibi non est ubi quaeritis. A razão por que não achamos o descanso é porque o buscamos onde não está. Não vos digo, diz Agostinho, que o não busqueis: buscai-o; só vos digo que não está aí onde o buscais. Pois se é bem que busquemos o descanso, e ele não está onde o buscamos, onde o havemos de buscar? Onde Cristo disse que o buscássemos, porque só aí está, e só aí o acharemos: Venite ad me omnes qui laboratis et onerati estis, et ego reficiam vos: Tollite jugum meum super vos, et invenietis requiem animabus vestris: Todos os que andais cansados - que sois todos - vinde a mim, diz Cristo, e eu vos aliviarei; tomai sobre vós o jugo de minha lei, e achareis o descanso. Credes que são estas palavras de Cristo? Sim. Agora, respondei-me: é certo que todos desejais o descanso; é certo que todos o buscais com grande trabalho, por diversos caminhos, e que o não achais. Pois por que o não buscais na observância da lei de Cristo? Cristo diz que na sua lei está o alívio de todo o trabalho: Venite ad me omnes qui laboratis, et ego reficiam vos. Cristo diz que na sua lei, e só na sua lei, se acha o descanso: Et invenietis requiem animabus vestris. Logo, se não buscais o descanso na lei de Cristo, é certo que não credes a Cristo, porque se vós buscais o descanso onde o não há, com trabalho, claro está que antes o haveis de buscar onde o há sem trabalho. Mas a verdade é - e vós o sabeis muito bem - que a razão por que não buscais o descanso na lei de Cristo é porque a não tendes por descansada, senão por muito trabalhosa. Vós tende-la por trabalhosa, dizendo Cristo que só ela vos pode aliviar do trabalho? Vós tende-la por cansada, dizendo Cristo que só nela está o descanso? Logo, credes o que vós imaginais, e não o que Cristo diz; credes em Cristo, mas não credes a Cristo: Non creditis mihi.

(…)

Infinita matéria era esta, se a houvéramos de prosseguir com ponderações tão largas. Mas não é bem que, sendo tão importante, não convençamos ainda mais a nossa pouca fé. Seja em termos brevíssimos. Que mais diz Cristo? Diz Cristo - e esta foi a primeira coisa que disse - que são bem-aventurados os pobres, e que deles é o reino do céu. Todos queremos ser bem-aventurados, todos queremos ir ao céu, e, sendo tão fácil o ser pobre, e tão dificultoso o ser rico, ninguém quer ser pobre: porquê? Porque não cremos a Cristo. Diz Cristo que, se nos derem uma bofetada na face direita, ofereçamos a esquerda, e, sendo mais nobre a paciência que a vingança, nós temos a vingança por honra, e a paciência por afronta: porquê? Porque não cremos a Cristo. Diz Cristo que quem se humilha será exaltado, e quem se exalta será humilhado; e nós cuidamos que sendo humildes nos abatemos, e sendo altivos e soberbos nos levantamos: porquê? Porque não cremos a Cristo.

Diz Cristo que deixemos aos mortos sepultar os seus mortos; e nós desenterramos os mortos, para sepultar os vivos. Diz Cristo que amemos e façamos bem a nossos inimigos; e quem há que ame verdadeiramente e guarde inteira fé aos amigos? Diz Cristo que, se amarmos os inimigos, seremos filhos de Deus; e nós dizemos: não serei eu filho de meu pai, se mo não pagar o meu inimigo. Diz Cristo que se por demanda nos quiserem tirar a capa, larguemos também a roupeta; e nós não fazemos já as demandas para defender o vestido próprio, senão para despir o alheio. Diz Cristo que vigiemos e estejamos sempre aparelhados, porque não sabemos o dia nem a hora em que virá a morte; e cada um vive e dorme tão sem cuidado, como se fôramos imortais. Diz Cristo que quem ouve os prelados, o ouve a ele, e quem os despreza, o despreza; e nós, ainda que o prelado seja o supremo, desprezamo-nos de o ouvir, e ouvimos e ajudamos os que o desprezam. Diz Cristo que é mais fácil entrar um calabre pelo fundo de uma agulha, que entrar um avarento no reino do céu; e nós, em vez de desfiar o calabre, todo o nosso cuidado é como o faremos mais grosso. Diz Cristo que, se dermos esmola, não saiba a mão esquerda o que faz a direita; e nós queremos se apregoe com trombetas que damos com ambas as mãos o que recebemos com ambas. Diz Cristo que, se o olho direito nos escandaliza, o arranquemos, e que se a mão, ou o pé direito nos for também de escândalo, o cortemos e lancemos fora; e quem há que queira cortar ou apartar de si, nem a coisa que ama como os olhos, nem aquela de que se serve, como dos pés e mãos? Finalmente diz Cristo que ele é o caminho, a verdade e a vida; e nós vivemos tais vidas e andamos por tais caminhos, como se tudo isto fora mentira: porquê? Porque não cremos a Cristo. Fique pois por conclusão certa e infalível, ainda que seja com grande confusão nossa e afronta do nome cristão, que todos, ou quase todos, cremos em Cristo, mas não cremos a Cristo: Non creditis mihi.

Padre António Vieira, in “Sermão da Quinta Dominga da Quaresma”, pregado na Sé Catedral de Lisboa, no ano de 1651

quinta-feira, março 22, 2012

Carta de Monsenhor Bux a Monsenhor Fellay

A Sua Excelência Dom Bernard Fellay e aos padres da Fraternidade Sacerdotal São Pio X
Excelência Reverendíssima,

Caríssimos Irmãos,

A fraternidade cristã é mais poderosa do que a carne e o sangue, porque ela nos oferece, graças à Divina Eucaristia, um antegozo do paraíso.

O Cristo nos convidou a fazer a experiência da comunhão, pois é nela que consiste nosso “eu”. A comunhão é estima a priori pelo próximo, porque nós temos em comum com ele o único Salvador. Por isso a comunhão está pronta a todo sacrifício em nome da unidade; e esta unidade deve ser visível, como nos ensina a última invocação da oração endereçada por Nosso Senhor a seu Pai – “ut unum sint, ut credat mundus” –, porque ela é o testemunho decisivo dos amigos de Cristo.

É inegável que muitos fatos do Concílio Vaticano II e do período sucessivo, relativos à dimensão humana deste acontecimento, representaram verdadeiras calamidades e causaram sentidas dores em grandes homens da Igreja. Mas Deus não permite que Sua Igreja possa chegar à autodestruição.

Não podemos considerar a dureza do fator humano sem ter confiança no divino, ou seja, na Providência que, sempre respeitosa da liberdade humana, guia a história, e em particular a história da Igreja.

A Igreja é ao mesmo tempo instituição divina, divinamente garantida, e obra dos homens. O aspecto divino não apaga aquele humano – personalidade e liberdade – nem necessariamente o inibe; o aspecto humano, permanecendo inteiro, e mesmo comprometendo, não apaga jamais o divino.

Por razões de Fé, mas também em razão das confirmações, ainda que lentas, que observamos no plano histórico, cremos que Deus preparou e continua a preparar no curso destes anos homens dignos para remediar os erros e abandonos que todos nós deploramos. Já surgem, e surgirão sempre mais, obras santas, isoladas umas das outras, mas que uma estratégia divina coliga à distância e assim a ação se torna um desenho ordenado, como aquela que ocorreu milagrosamente na época da dolorosa revolta de Lutero.

Estas intervenções divinas parecem se multiplicar na medida em que os fatos se complicam. O futuro o provará, e disto estamos convencidos, e já parece raiar a aurora.

Durante alguns instantes, a aurora, incerta, luta com as trevas, lentas a se retirarem, mas quando ela aponta já se sabe que o sol está lá e que ele percorre inevitavelmente seu curso nos céus.

Com Santa Catarina de Sena, nós queremos vos dizer: “Vinde a Roma com toda segurança”, à casa do Pai comum que nos foi dado como princípio e fundamento visível e perpétuo da unidade católica.

Vinde participar deste bendito futuro em que já se entrevê, a despeito das trevas persistentes, a aurora.

Vossa recusa aumentaria as trevas e não a luz. E já são numerosos os raios de luz que nós contemplamos, a começar da grande restauração litúrgica operada pelo motu proprio “Summorum Pontificum”. Ele suscita no mundo inteiro um grande movimento de adesão da parte de todos aqueles, e notadamente dos jovens, que pretendem engrandecer o culto do Senhor.

Como não considerar ainda os outros gestos concretos e carregados de significado do Santo Padre, como a remissão das excomunhões aos bispos ordenados por Dom Lefebvre, a abertura de um debate público sobre a interpretação do Concílio Vaticano II à luz da Tradição e, consequentemente, a renovação da Comissão Ecclesia Dei?

Restam certamente certas perplexidades, pontos a aprofundar ou a esclarecer, como sobre o ecumenismo e o diálogo inter-religioso (que ademais já foi objeto de um importante esclarecimento trazido pela declaração Dominus Iesus da Congregação para a Doutrina da Fé de 6 de agosto de 2000) ou sobre a maneira em que é compreendida a liberdade religiosa.

Também sobre estes temas, vossa presença canonicamente garantida na Igreja ajudará a trazer mais luz.

Como não pensar na contribuição que vós podereis dar, graças a vossos recursos pastorais e doutrinais, a vossa capacidade e sensibilidade, para o bem de toda a Igreja?

Eis o momento oportuno, a hora favorável para retornar. Timete Dominum transeuntem: não deixeis passar a ocasião da graça que o Senhor vos oferece, nem a deixeis passar a vosso largo sem a reconhecerdes.

O Senhor vos concederá outra?

Não deveremos nós todos comparecer um dia diante do Seu Tribunal e responder não somente pelo mal praticado mas sobretudo pelo bem que nós teríamos podido fazer e que não realizamos?

O coração do Santo Padre palpita: ele vos espera ansiosamente porque vos ama, porque a Igreja precisa de vós para uma profissão de fé comum no meio de um mundo sempre mais secularizado e que parece voltar irremediavelmente as costas a seu Criador e Salvador.

Na plena comunhão eclesial, com a grande família que constitui a Igreja Católica, vossa voz jamais será desprezada, vosso engajamento não será negligenciável ou negligenciado, mas poderá dar, com os de tantos outros, frutos abundantes que de outro modo permaneceriam dispersos.

A Imaculada nos ensina que muitas graças são perdidas porque elas não são pedidas: nós estamos convencidos de que, em respondendo favoravelmente à oferta do Santo Padre, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X se tornará um instrumento para acender novos raios nos dedos de nossa Mãe Celeste.

Neste dia que lhe é dedicado, que São José, esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, Patrono da Igreja universal, queira inspirar e sustentar vossas resoluções: “Vinde com segurança a Roma”.

Roma, 19 de março de 2012

Solenidade de São José

Pe. Nicola Bux

Fonte: Logos

***

Com respeito a este assunto, sugiro também a leitura integral do artigo “Don Bux Bux habla por todos”, publicado por Terzio no seu “Ex Orbe”. Respigo um trecho:

La carta de Don Bux a Mons. Fellay es un testimonio de cómo vivimos los católicos conscientes este momento decisivo, que puede marcar un hito, un antes y un después, en el declive de la Iglesia. Lo que no dice Don Bux, se sobrentiende.

(…)

Lo que no se explicita es el grito de socorro, el sentido y encarecido ¡ayudadnos! Porque pudiera dar la impresión de que se les ruega que agarren el salvavidas, cuando lo que se les pide, en realidad, es que vengan en nuestro socorro, que acudan a auxiliar a Roma.

¿Y si no llegaran? Sería muy malo para Roma, porque continuaría sometida a la inercia post-conciliar, sin fuerzas ni resortes para reaccionar, detener, restaurar, sanar. Y el derrumbe continuaría, implacable.

La FSSPX no está en crisis. La crisis se sufre en toda la Iglesia Católica, con sectores, diócesis, naciones perdidas o a punto de perderse, o en trance de descomposición inminente. La inserción plena de la FSSPX sería un feliz injerto de tejido sano sobre un organismo enfermo, en estado crítico.

domingo, março 18, 2012

Quarto Domingo da Quaresma - II


Pois que remédio para acrescentar a fazenda, útil, discreta, e muito seguramente? O remédio é muito fácil: dar da que tiverdes, por amor de Deus. De maneira que ambos os nossos pontos se vêem a resumir a Deus. Quereis ter pão? Servi a Deus. Quereis ter muito? Dai por amor de Deus. Pois o dar, o tirar a mim, é caminho de acrescentar? Antes parece caminho de diminuir. Se fora dar por amor dos homens, ou por outro respeito, sim, que era caminho de perder o que se dá; mas dar por amor de Deus, não há mais certa negociação, não há mais certo modo de ajuntar a fazenda. Vêde-o no nosso Evangelho. Unde ememus panes, ut manducent hi? Perguntou o Senhor onde achariam pão, para que comessem todos. Respondeu Santo André, que todos os pães que havia não passavam de cinco: Est puer unus hic, qui habet quinque panes; e com estes, sendo só cinco, quis Cristo dar de comer a todos. Pois, Senhor, não vêdes que tendes doze Discípulos que sustentar, e que os pães não são mais que cinco? Se tivésseis muito pão, então estavam bem essas liberalidades; mas sendo tão pouco? Antes por isso mesmo: se os Apóstolos tiveram doze pães, então não era necessário mais; porém como não tinham mais que cinco, era força buscar algum modo de os acrescentar; e não podia haver meio mais breve, nem mais certo, que dá-los aos pobres. E assim foi; que os Apóstolos, porque deram cinco pães, não só receberam doze pães, senão doze alcofas: Duodecim cophinos. Se os Apóstolos foram de ânimo avarento e acanhado, e quiseram comer os seus cinco pães, saíra menos de meio pão a cada um; mas porque cada um deu o seu pedaço de pão, ficou com uma alcofa cheia. Dizia o sábio falando de uma mulher sábia: Manum suam aperuit inopi, et palmas suas extendit ad pauperem: Abriu a mão, e estendeu as mãos. Mas porque, ou para que? Porque quando abris uma mão para dar por amor de Deus, é necessário abrir duas para receber; quando o que dais cabe numa mão, o que recebeis não cabe em duas. Assim lhes aconteceu hoje aos Apóstolos. O pão que deram (que era o que tocava a cada um) cabia em três dedos, e o que recolheu cada um, não cabia em duas mãos, por isso foi necessário tomarem alcofas: Duodecim cophinos.

Tudo temos em um caso do Testamento Velho. Acabado o dilúvio, sai Noé em terra com seus filhos, e todos os animais; e lançou-lhes Deus a bênção, dizendo: Crescite, et multiplicamini, super terram; Crescei, e multiplicai sobre a terra. E que fez Noé? Edificavit altare Domino, et tollens de cunctis pecoribus, et volucribus mundis obtulit holocausta: Levantou um altar, e começou a degolar todos os animais, de que era lícito fazer sacrifício, e queimou-os sobre ele. Parece que de repente se esqueceu aqui Noé do que Deus tinha dito e mandado. Não tinha dito Deus que crescessem, e multiplicassem sobre a terra todos os animais? Pois como os degola Noé e queima, e sacrifica sobre o altar. Olhai: Noé não matou as reses para as comer, matou-as para as oferecer e sacrificar a Deus; e para as coisas crescerem e multiplicarem, o meio mais certo e seguro, é dá-las a Deus.

E de que modo as daremos a Deus? Bendita seja sua infinita majestade e bondade, pois se serviu ensinar-nos por sua própria boca, o que nem imaginar nos atreveríamos: Quandiu fecistis uni ex his fratribus meis minimis, mihi fecistis: Tudo o que dais ao pobre, dai-lo a mim. Vêdes, cristãos, como podemos dar a Deus tudo: tudo o que damos ao pobre, damo-lo a Deus; e se quereis que as vossas coisas se cresçam, e se multipliquem, repartia-as com os pobres. Dois modos há no mundo, com que as coisas crescem, e se multiplicam muito; um natural, ou da arte, como na lavoura; outro industrial, como na mercancia. Na lavoura, semeais um alqueire de pão, colheis quinze, colheis vinte, e se a terra é muito boa, colheis trinta. Na mercancia, empregastes cinquenta, ganhastes cento, ganhastes duzentos, e às vezes mais. Tudo isto tendes na esmola. Dar esmolas é semear, e é negociar, mas com grandes vantagens. Para semear, não há melhor terra que a as mãos do pobre; e para negociar não há melhor correspondente que Deus. Não são considerações minhas, tudo é fé, e sagrada Escritura.

Padre António Vieira, in “Sermão da Quarta Dominga da Quaresma”, pregado na Matriz de São Luís do Maranhão, no ano de 1657

sábado, março 17, 2012

Quarto Domingo da Quaresma - I


Duas partes teve o voto de Santo André, e a primeira de grande juízo e acerto. Aqui há, disse, um moço que tem cinco pães: Est puer unus hic, qui habet quinque panes. O voto verdadeiro há se de fundar no que é, e no que há, ou seja muito, ou seja pouco; e não votos mui elegantes e discretos, mas fundados no impossível, que dizem o que fora bem haver, e não há; e fora bem ser, e não é. Na segunda parte reconheceu André a dificuldade e a desproporção dos cinco pães para sustentar a tantos mil: Sed haec quid inter tantos? E também aqui acertou, como bom conselheiro de guerra, sem advertir porém qual era o general debaixo do qual militava. Considerando Cristo Senhor Nosso esta mesma proporção do número que há-de haver dos combatentes de uma e outra parte, disse assim: Quis rex iturus committere bellum adversus alium regem, non sedens prius cogitat si possit cum decem millibus occurrere ei, qui cum viginti millibus venit ad se? Que rei há, diz o Senhor, o qual sabendo que vem outro a acometê-lo com o exército de vinte mil soldados, não cuida primeiro, muito devagar, se pode sair a pelejar com ele em campanha? Boa consolação, e tão necessária, como animosa para os capitães mais versados na aritmética, que na milícia, os quais dizem, quase, hereticamente, que Deus se costuma pôr da parte onde há mais mosqueteiros. Heresia muitas vezes condenada na Sagrada Escritura, onde se diz, que tão fácil é a Deus vencer com poucos, como com muitos: Non est differentia in conspectu Dei caeli liberare in multis, vel in paucis.

Desta sentença de Cristo pode inferir, não digo o nosso temor, mas o nosso cuidado, que ainda que os inimigos que nos infestam, tenham dobradas bocas de fogo, nem por isso devemos recear ou desconfiar da vitória. Mas não é isto só o que aquela sentença significa, sendo a nossa guerra puramente defensiva. Quando Cristo diz que pode um rei esperar que com dez mil combatentes resista e prevaleça contra o que acomete com vinte mil, fala expressamente de batalha campal, e guerra em campanha, como se colhe claramente das palavras: Si possit cum decem millibus occurrere ei; e a nossa guerra nas circunstâncias presentes, pode com dez mil resistir e defender-se, não só de vinte senão de cem mil; porque na campanha peleja um homem contra outro homem de peito a peito; porém os que se defendem cobertos e armados das suas fortificações com uma muralha diante, ainda que sejam pigmeus, em respeito dos outros homens são gigantes. Assim o diz o profeta Ezequiel da confiança ou desprezo com que os soldados da cidade de Tiro zombavam, sendo pigmeus, de todos os seus sitiadores, mostrando-lhes os arcos e as aljavas penduradas na altura dos muros, donde, comparados com os outros homens, eram gigantes: Sed et pygmaei, qui erant in turribus tuis per gyrum: ipsi compleverunt pulchritudinem tuam.

Padre António Vieira, in “Sermão da Quarta Dominga da Quaresma”, pregado na Igreja da Conceição da Praia, na Bahia, no ano de 1633

sexta-feira, março 16, 2012

Plenos de gilipolleces y miserables

Desde esta mañana he estado pendiente de cualquier noticia que se produjera en Roma y a media tarde empecé a leer lo mucho que se estaba escribiendo en el internet sobre la FSSPX y Roma.
La verdad es que me he alegrado de ver un ejercicio de periodismo serio, y veraz, sin por ello dejar de expresar su opinión. Me refiero al artículo salido en Le Figaro que firma Jean-Marie Guénois. Por favor, no dejen de leer este post de Guénois, que vale su peso en oro.

Reflexiones sobre lo leído acerca de la conversación entre Levada y Fellay hoy
Roma ha lanzado un comunicado escueto. Y del comunicado se pueden sacar, pegados a los datos y a las palabras, no muchas consecuencias. He visto cosas variopintas. Desde una página autodenominada de información católica (¿querrán decir de información caótica?) que llega a cambiar títulos y textos tres veces en menos de tres horas (que yo le siguiera). Muchos plumíferos, llamados católicos, están a palos con el primer deber filosófico de un católico: el realismo. Es misión del católico, necesidad inherente diría yo, el tratar de adecuar su mente a la realidad, y no viceversa. Pero aquí unos y otros escriben en esta aldea global del internet, en este dazibao gigantesco, sus sonsonetes de siempre. Sus apriorismos, en una palabra.
Luego están los comentaristas. ¡Menuda fauna! Auténticos campeones del frikismo, algunos, instalados en no sé qué fractal, émulos de la más inverosímil criatura de Lovecraft. ¡Qué caos de mentes! ¡Qué ignorancias más supinas! Torpes, verdaderamente torpes, en cosas elementales. Incapaces de lógica. Y menos aún, claro está, de sentido común. Y eso sí: viscerales. La visceralidad que no falte, por favor. Esto es la versión evangelista, de barniz católico, de los sermones furibundos, de las afirmaciones taxativas. La prensa rosa en versión pseudocatólica. ¡Qué vergüenza! ¡Qué bajeza!
Y luego está Lombardi … ¡Ay, Lombardi …! ¡Siempre Lombardi! ¡Vaya tóxico! Que el Señor tenga piedad de él. Mejor a veces callar.
¡Cuánta gilipollez!

Más reflexiones sobre la situación de la Iglesia y la FSSPX
Quédense con esto del artículo de Guénois. Y léanlo entero. Sacarán mucho más en claro de esto, que de la vastísima mayoría de lo que hasta hoy se lleva escrito. Y se lo dice uno que lleva varias horas dedicado a ver qué es lo mejor que se puede leer sobre el tema.
“Cette courtoisie toute romaine n’est pas pas anodine. Elle indique au contraire que le Pape veut toujours un accord, qu’on le veuille ou non. Et que Mgr Fellay le souhaite aussi, qu’on le veuille ou non.”
Está cayendo una tremenda. La Iglesia está a punto de una fractura descomunal, pero no de esa fracturilla de la FSSPX, que en todo caso, muy pequeña y minoritaria sería. Hablo de la fractura que se está gestando en la Alta Crítica (o Logia o Venta, vaya Vd a saber) de la progresía.
La Hermandad de San Pío X puede estar empezando a patinar en temas de Eclesiología, y bueno será recordarle que las promesas de indefectibilidad a la Iglesia son, precisamente, a la Iglesia. Ni el argumento de necesidad es ya sostenible.
Y Roma, creo que ya es sabedora de ello, no puede seguir con el conciliovaticanismosegundista que ya ni a segundón llega; porque en las críticas al Vaticano II si algo cabe decir de la Hermandad de San Pío X es que se han podido quedar hasta cortos y romos. Pero ahí están los trabajos de Monseñor Gherardini o el impresionante libro de Nicola Bux, Juan Miguel Ferrer y Gabriel Díaz Patri titulado “El Motu Proprio Summorum Pontificum y la Hermenéutica de la Continuidad”. Hablamos, todos ellos, de clérigos perfectamente regulares y hasta con cargos importantes en Roma. El palo litúrgico al concepto de participación que mete el Padre Díaz Patri, pongamos por ejemplo, no es capaz de meterlo ni el más aguerrido y duro Sacerdote de la FSSPX.
Lo mejor de todo esto es que a la Tradición ya no la para nadie. Con el tiempo irá a más, aunque la progresión inicial sea poca y aunque algún evento apocalíptico la pueda poner en el congelador unos pocos años. La Iglesia Católica tiene un pegamento que une las épocas, y éste es el de la Tradición, no otro. Claro que la Tradición es el pasado, pero más aún todavía es el futuro. Y, mucho me temo, la Tradición es una realidad bien viva y bien presente en estos tiempos. ¡Quién lo diría! Cosas del Espíritu Santo, me atrevo a decir. De otro modo no se explica.
Por eso es tan necesaria la regularización de la FSSPX. Porque la Tradición es católica y, necesariamente, tiene que estar dentro de la Iglesia. Porque la herejía viene del sector netamente modernista. Por cierto, ¿por qué no se emplea la misma vara de medir con estos herejotes redomados que con unos desobedientes, pero leales, cristianos?
Es tan obvio que el problema rebasa ya ciertos detalles concretos que el Papa quiere contar con la FSSPX, y la generosidad –y la enorme paciencia- del Santo Padre, vuelve a quedar de manifiesto. Y es obvio, también, que Fellay empieza a caer de la higuera que él mismo –estúpidamente- se montó con tanta discusión doctrinal. Como bien dice Guénois, la cuestión ahora ya no es teológica, sino eclesial. ¿No era esto, dicho sea de paso, lo que Su Eminencia Darío Castrillón Hoyos dijo hace años?
El argumento de necesidad es que es necesario solucionar esta situación, cuanto antes mejor. Por el bien de la FSSPX, que necesita a Roma. Y, más aún, por el bien de la Iglesia, que necesita a la FSSPX dentro.
Luego los lombarderos de baja estofa tratarán de dar palo a la Tradición, distorsionar los hechos, fracturar de verdad a la Iglesia y demás. Pero, eso, son ya otras historias. Son las historias de quienes cuecen el mejunje de la religión única y sincretista, la auténtica caverna espiritual del Anticristo.
¡Cuánto miserable!

Conclusión
Recemos. Ocupémonos de lo que nos es dado. Hagamos penitencia. Y no dejemos de rogar para que el Santo Padre consagre a Rusia al Inmaculado Corazón.

Rafael Castela Santos

terça-feira, março 13, 2012

Imposible que se nos quite el miedo de estos Obispos

Que muchos, muchísimos (uno ya sería demasiado), Obispos están contra la Tradición, seguro. Uno de los más taimados (*) Obispos españoles, el sólo aparentemente conservador (y a veces menos que eso) Cardenal Rouco, sigue poniendo la Misa Tridentina en Madrid a los pies de los caballos. No se pierdan los comentarios del hiperenlace que acabo de señalar, por favor.
Otros Obispos, como uno de Estados Unidos de cuyo nombre no quiero acordarme, son capaces de crucificar a un sensato Sacerdote por el mero hecho de negar la Comunión a quien vive en pecado público y del cual la pecadora pública se jacta. El escándalo estriba en quitarle a este Sacerdote no sólo su misión canónica, sino el poder decir Misas y de ejercer cualquier aspecto de su ministerio sacerdotal por parte de su Obispo. La línea apostólica de este Obispo no parece ser otra que la de Judas Iscariote, la de la entrega del inocente a la turbamulta.
Es imposible que se nos quite el miedo de estos Obispos, auténticos lobos con piel de cordero en el rebaño de Cristo. Cada día tengo por más cierto que si se diera una regularización de la FSSPX, no queda otra opción que dejar ésta por encima de los Obispos diocesanos. Si fueran uno o dos, pase, pero este blog está lleno de informaciones sobre las fechorías hechas a la Tradición por Obispos portugueses, como Miles se ha hartado de denunciar en mil y una ocasiones en A Casa de Sarto. Lo que quiero decir es que el problema es universal, que no sólo afecta a este o aquel Obispo particular.
¿Está seguro el Cielo que no hay algún Ángel Exterminador especializado en Obispos progres, fautores de escándalos, tibios, liberales y contrarios a la Fe y la Doctrina? … ¿Y no lo podría mandar un rato a la Tierra en comisión de servicios?
La verdad es que con un Ángel Reformador de probada eficacia, o una Roma dispuesta a sancionar canónicamente las graves violaciones del Derecho Canónico y de la más elemental justicia, nos dábamos por más que satisfechos.
¡Señor, qué cruz más horrible y hedionda la de estos Obispos!

Rafael Castela Santos

(*) Taimado (Del port. taimado, der. de teima, tema, obstinación): 1. adj. Bellaco, astuto, disimulado y pronto en advertirlo todo. U. t. c. s. (Diccionario de la Real Academia de la Lengua Española). Evidentemente nada más lejos de mi intención que llamar “bellaco” a Su Eminencia, pero sí astuto, disimulado y pronto en advertir cómo quedar bien ante Roma, cumpliendo –o permitiendo cumplir, que me da igual azotar que en el culo dar- con menos de lo que el Summorum Pontificum decreta, y manteniendo a la vez la Tradición en Madrid en un status bonsai.

segunda-feira, março 12, 2012

Regustando la Misa de ayer y sus oraciones

De la Misa del 3er Domingo de Cuaresma.

Introito
Oculi mei semper ad Dominum, quia ipse evellet de laqueo pedes meos: respice in me, et miserere mei, quoniam unicus et pauper sum ego. Ad te, Domine, levavi animam meam: Deus meus, in te confido, non erubescam. Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto. Sicut erat in principio, et nunc, et semper, et in saecula saeculorum. Amen.

(Mis ojos miran siempre al Señor, porque Él librará del lazo mis pies: mírame, oh Dios, y apiádate de mí, porque me veo sólo y pobre. A Ti, Señor, levanté mi alma: Dios mío, en Ti confío, no sea confundido. Gloria al Padre y al Hijo y al Espíritu Santo. Como era en un principio, ahora y siempre por los siglos de los siglos. Amén.)

Colecta
Quaesumus, omnipotens Deus, vota humilium respice: atque ad defensionem nostram, dexteram tuae maiestatis extende. Per Dominun nostrum Jesum Christum Filium suum, qui cum eo vivit et regnat in unitate Spiritus Sancti Deus, per omnia saecula saeculorum. Amen.

(Rogámoste, oh Dios omnipotente, mires los deseos de los humildes y extiendas la diestra de tu Majestad para defendernos. Por Nuestro Señor Jesucristo, que contigo vive y reina en la unidad del Espíritu Santo, por todo los siglos de los siglos. Amén.)

sábado, março 10, 2012

Terceiro Domingo da Quaresma


O pior estado desta vida, e o mais infeliz, de todos, é o pecado. Mas se neste extremo de mal pode haver ainda outro mal maior, é o de pecado, e mudo. O mais desventurado homem de que Cristo nos quis deixar um temeroso exemplo, foi aquele da parábola das bodas, a quem o rei, atado de pés e mãos, mandou lançar para sempre no cárcere das trevas. O rei era Deus, o cárcere o infemo, e o homem foi o mais desventurado de todos os homens, porque no dia e no lugar em que todos se salvaram, só ele se condenou. E em que esteve a sua desgraça? Só em pecar? Não, porque muitos depois de pecar se salvaram. Pois em que esteve? Em emudecer depois de pecar. Estranhou-lhe o rei o descomedimento de se assentar à sua mesa, e em tal dia, com vestido indecente, e ele em vez de solicitar o perdão da sua culpa confessando-a, confirmou a sua condenação emudecendo: At ille obinutuit: E ele, diz o evangelista, emudeceu. Aqui esteve o remate da desgraça. Mais mofino em emudecer que em pecar, porque cometido o pecado tinha ainda o remédio da confissão, mas emudecida a confissão, nenhum remédio lhe ficava ao pecado. Pecar é enfermar mortalmente; pecar é emudecer, é cair na enfermidade, é renunciar o remédio. Pecar é fazer naufrágio o navegante; pecar e emudecer, é ir-se com o peso ao fundo, e não lançar mão da tábua em que se pode salvar. Pecar é apagarem-se as lâmpadas às virgens néscias; pecar e emudecer é apagar-se-lhes as lâmpadas e fechar-se-lhes as portas. O pecado tem muitas portas para entrar e uma só para sair, que é a confissão. Pecar é abrir as portas ao demónio para que entre à alma; pecar e emudecer, é abrir-lhe as portas para que entre, e cerrar-lhe a porta para que não possa sair. Isto é o que em alegoria comum temos hoje no Evangelho. Um homem endemoninhado e mudo. Endemoninhado, porque abriu o homem as portas ao pecado; mudo, porque fechou o demónio a porta à confissão.

E que fez Cristo neste caso? Maior caso ainda! Erat ejiciens daemonium. Não diz o evangelista que lançou Cristo o demónio fora, senão que o estava lançando. Achava Cristo repugnância, achava força, achava resistência, porque não há coisa que resista a Deus neste mundo senão um pecador mudo. Tantas vozes de Deus aos ouvidos, e o pecador mudo? Tantos raios e tantas luzes aos olhos, e o pecador mudo? Tantas razões ao entendimento, tantos motivos à vontade, tantos exemplos e tão desastrados e tão repetidos à memória, e o pecador mudo? Que fez aí fim Cristo? Aplicou a virtude de seu poder eficaz, bateu à porta; porque não bastou bater à porta, insistiu, apertou, venceu, saiu rendido o demónio, e falou o mudo: Cum ejecisset daemonium, locutus est mutus. Este foi o fim da batalha, glorioso para Cristo, venturoso para o homem, afrontoso para o demónio, maravilhoso para os circunstantes, e só para o nosso intento parece que menos próprio e menos airoso. Diz que primeiro saiu o demónio, e depois falou o mudo: Cum ejecisset daemonium, locutus est mutus. E nesta circunstância, parece que se encontra a ordem do milagre com a essência do mistério. Na confissão, primeiro fala o mudo, e depois sai o demónio; primeiro se confessa o pecador, e depois se absolve o pecado. Logo, se neste milagre se representa o mistério da confissão, primeiro havia de falar o mudo, e depois havia de sair o demónio. Antes não, e por isso mesmo, porque aqui não só se representa a confissão, senão a confissão perfeita, e a confissão perfeita não é aquela em que primeiro se confessa o pecado, e depois se perdoa, senão aquela em que primeiro se perdoa, e depois se confessa.

Resolveu-se o pródigo a tomar para casa do pai e confessar sua culpa, e como bom penitente dispôs e ordenou primeiro a sua confissão: Ibo ad patrem meum, et dicam ei: Pater peccavi in coelum, et coram te. Feita esta primeira diligência, pôs-se a caminho, e estando ainda muito longe: Cum adhuc longe esset, eis que subitamente se acha entre os braços do pai, apertando-o estreitamente neles, e chegando-o ao rosto com as maiores carícias: Accurrens cecidit super collum ejus, et osculatius est eum. Então se lançou o pródigo a seus pés e fez a sua confissão como a trazia prevenida: Et dixit ei filius: Pate; peccavi in coelum et coram te. Pois agora, filho pródigo? Não era isso o que vós tínheis ensaiado. Enfim temos a comédia turbada. O pai saiu cedo, o filho falou tarde. Perderam as figuras as deixas, erraram a história, trocaram o mistério. Esta história do pródigo não é a comédia ou o acto sacramental da confissão? Sim. Logo, primeiro havia o pródigo de lançar-se aos pés do pai e fazer o papel da sua confissão, como a trazia estudada, e depois havia o pai de lançar-lhe os braços, e restitui-lo à sua graça. Pois por que se troca toda a ordem, e primeiro lhe lança os braços o pai, e depois se confessa o filho? Porque representavam ambos não só o acto sacramental da confissão, senão da confissão perfeitíssima. Na confissão menos perfeita, primeiro se confessa o pecado, e depois se recebe a graça; na confissão perfeitíssima primeiro se recebe a graça, e depois se confessa o pecado. A confissão menos perfeita começa pelos pés de Deus, e acaba pelos braços; a confissão perfeitíssima começa pelos braços e acaba pelos pés, como aconteceu ao pródigo. A razão é clara, porque a confissão perfeitíssima é aquela em que o pecador vai aos pés de Deus verdadeiramente contrito e arrependido de seus pecados. Vai verdadeiramente contrito e arrependido? Logo já vai em graça, já vai perdoado, já vai absolto. E esta é a confissão que hoje temos no milagre do Evangelho. Confissão em que primeiro se recebe a graça e depois se confessa o pecado; confissão em que primeiro sai o demónio, e depois fala o mudo: Cum ejecisset daemonium, locutus est mutus.

Padre António Vieira, in “Sermão da Terceira Dominga da Quaresma”, pregado na Capela Real, em Lisboa, no ano de 1655

quarta-feira, março 07, 2012

Uma Emissora pouco Católica...

ou a Igreja portuguesa em contínuo estado de necessidade.

Vale a pena ler o artigo objecto da ligação de fio a pavio, pois contém uma magnífica exposição, na mais pura tradição tomista, sobre a incompatibilidade das leis humanas iníquas com a lei moral natural.

De los polvos de la injusticia social vienen los lodos de las guerras

Está claro que Miles y un servidor sentimos debilidad por algunos autores. Leonardo Castellani entre los ya clásicos, aunque sean contemporáneos. Y, entre los vivos, Juan Manuel de Prada. No sólo Juan Manuel de Prada, escritor consagrado y uno de los Premios Planeta –uno de los galardones literarios más prestigiosos del mundo hispánico-, ha sido un gran divulgador del Padre Castellani, sino que –al igual que yo- sí cree que el distributismo (como solución económica) es posible. Es más, Juan Manuel, con cuya amistad me honro, piensa que el distributismo sería una buena avenida de solución a la crisis que nos aflige.
El problema de esta crisis económica es metaeconómico. No sólo en sus raíces, sino en sus consecuencias. En sus raíces –aparte de la manipulación y la artificialidad de la misma en buena causa- están unos graves problemas políticos de génesis espiritual. Y entre sus consecuencias está la gravísima injusticia social que genera.
En el siglo XIX la Desamortización supuso la expropiación de muchísimos bienes eclesiásticos y de los Ayuntamientos en España. Aquellas propiedades eran el sustento de muchos pobres que, de esta manera, no caían en la miseria. La Desamortización creó una clase de nuevos ricos que expoliaron y machacaron a las clases populares. De aquella situación económica horrorosa se generó una injusticia social que culminó en la Cruzada de 1936, vulgo Guerra Civil. Dígase lo que se diga, lo mejor de Franco fue la elevación a la clase media de enormes capas de sectores populares, restaurando así mucho de aquella perdida justicia social. Quién sabe si la gravísima injusticia social de hoy día, donde nunca hubo tan pocos que poseyeran tanto, no devendrá aún en cosas peores.
De eso habla Juan Manuel de Prada en un artículo reciente cuya fuente original encontramos aquí. Artículo que él titula “Fariseísmo” porque, en el fondo, late el fariseísmo –pecado acérrimo donde los haya- tras la injusticia social –sin olvidarnos que pagar el justo salario al obrero es uno de esos pecados que clama venganza al Cielo-.
Pero infinitamente mejor sus palabras que las mías, que penetran en muchos entresijos espirituales que nos deberían hacer reflexionar profundamente. Con ellas les dejo.

Rafael Castela Santos


“En un artículo clarividente titulado «Sobre tres modos católicos de ver la guerra española», publicado en 1937, Leonardo Castellani —haciendo gala, una vez más, de esa libertad intelectual que procura la fe, cuando es verdadera— empieza ofreciendo una «visión humana» de nuestra Guerra Civil, declarándose partidario de Franco: «La pura y simple humanidad del hombre le impone que, al ver dos riñendo, desee que uno gane, aunque no sea sino por amor de la paz o de las situaciones claras; y que no gane el peor». Pero a Castellani no le basta con esta mera «visión humana»; y lanza a continuación una «visión filosófica» que «considere también lo que hubo antes y lo que vendrá después, sacando consecuencias y enseñanzas». Y aquí Castellani afirma que «esta guerra tiene por lo menos una de sus raíces en la injusticia social»; y añade: «Toda esa sangre de cristianas venas (porque también marxistas españoles tienen sangre —y quizá algunos alma— de bautizados) ha sido reclamada ante Dios por una gran pirámide de pecados previos contra el pobre, de pecados contra el hermano, de pecados contra el débil, de pecados contra el niño, de pecados contra Dios. De pecados desos que dice la Escritura claman al cielo. Y no me parece imposible que en esa mole de pecados que ahora se lava en sangre estuviesen también representados algunos de los que ahora más vociferan. Este señalamiento de los pecados contra la justicia social —pecados que claman al cielo— como una de las raíces de la Guerra Civil me parece admirable, viniendo de alguien que no muestra rebozo alguno en proclamarse partidario de Franco. Pero aún Castellani ahonda más; y nos ofrece una tercera «visión teológica» de la guerra, preguntándose «por qué una parte del admirable pueblo español se puso de golpe a odiar a Dios, es decir los sacerdotes, monjas, templos, cálices, crucifijos, imágenes; las imágenes terrenas de Dios».
No basta, a juicio de Castellani, con decir que «los rusos se lo enseñaron», ni siquiera con añadir que a los rusos se lo enseñó Satán. «¿Quién soltó a Satán?», se pregunta Castellani. Y entre las causas que soltaron a Satán, Castellani menciona una enfermedad de la fe: el fariseísmo, una «esclerotización de lo religioso» o «traspaso de la mística en política», que acaba convirtiéndose en «odiosa y criminosa hipocresía, mezcla de orgullo, ambición, avaricia, mentira, impiedad y dureza, con infinidad de grados medios: aulicismo, curialismo, clericalismo, ritualismo, fachadismo o religión de aparato, ambicioncilla, intriguilla eclesiástica, etcétera». El odio al fariseísmo, nos recuerda Castellani, fue empresa personal que Cristo cargó sobre sus espaldas, a sabiendas de que le costaría la vida, sin desdeñar la invectiva —raza de víboras, sepulcros blanqueados— y la fusta; y tiene que ser empresa que prosiga la Iglesia, «poniendo la misericordia y la justicia por encima de las ceremonias», para mantener vivo el corazón de la religiosidad, para no favorecer ese odio a Dios que en los años de la Guerra Civil alcanzó cúspides de inhumanidad y bestialismo.
En este combate contra el fariseísmo la Iglesia se juega mucho; sobre todo en épocas como la nuestra, en que la injusticia social —pecado que clama al cielo— vuelve a campar por sus fueros. De esta preocupación nos dio ejemplo Juan Pablo II, con obras tan preclaras como la encíclica Laborem exercens, de cuya proclamación acaban de cumplirse treinta años. Sorprende que no se haya aprovechado este aniversario para refrescar las inequívocas enseñanzas de justicia social que en dicha encíclica se contienen; y es que el veneno sutil del fariseísmo sigue haciendo de las suyas.”

Juan Manuel de Prada

O corajoso magistério de um bispo brasileiro

De Dom José Benedito Simão, Bispo de Assis, São Paulo, em defesa da sã doutrina e da vida humana contra os “católicos” de letreiro, embaixadores dos erros do mundo no seio da Igreja. A sua mensagem “Reflexão sobre a Vida” pode ser lida na íntegra aqui. Prouvera que em Portugal existissem também bispos deste quilate!

segunda-feira, março 05, 2012

El doble rasero ... siempre contra la Iglesia

La Hipocresía con el IBI

Fuente original aquí.

"En algunos ayuntamientos de Madrid Izquierda Unida está pidiendo a la iglesia que renuncie al privilegio de su exención del IBI. Y creo que puede ser bueno aclarar a la gente qué es eso. Ya sabes, por si te parece oportuno difundirlo. En estos días se han levantado voces que solicitan que la iglesia deje de estar exenta del pago del IBI, el impuesto de bienes inmuebles, porque es un privilegio y porque en estos tiempos de crisis los ayuntamientos no se pueden permitir el renunciar a lo recaudado por ese concepto.
Quiero con esta entrada aclarar algunas cosas sobre ese supuesto privilegio de la Iglesia Católica, haciendo dos consideraciones.

Primera consideración
La exención del IBI (Impuesto sobre Bienes Inmuebles) no es en absoluto un privilegio especial de la iglesia católica. Por ley, están exentos de IBI:·
- Servicios públicos (Defensa, Seguridad, Educación y Servicios penitenciarios).
- Los inmuebles destinados a usos religiosos por aplicación de Convenios con la Santa Sede, con la Federación de Entidades Religiosas Evangélicas, con la Federación de Comunidades Israelitas y con la Comisión Islámica.
- Pertenecientes a gobiernos extranjeros o que les sea de aplicación la exención por convenios internacionales.
- Los pertenecientes a Cruz Roja.
- Los terrenos ocupados por las líneas de ferrocarriles y los edificios enclavados en los mismos terrenos.
- Colegios concertados.
- Pertenecientes al patrimonio histórico-artístico.
- Entidades sin fines lucrativos
Y no digamos las ventajas fiscales de que gozan partidos políticos y sindicatos: No tienen que declarar lo ingresado por cuotas, las subvenciones, las donaciones, los rendimientos de sus actividades económicas, los rendimientos procedentes de las rentas de su patrimonio.
Pues ya ven: Nadie pide que partidos políticos y sindicatos renuncien a sus enormes ventajas fiscales. Nadie que paguen el IBI las mezquitas o templos budistas. Nadie clama por el pago del IBI de embajadas o colegios, o grandes palacios. Ni exigen que lo pague el ejército o las comisarías, las estaciones de RENFE o las cárceles.
No. Nada de nada, pero que lo pague la Iglesia.

Segunda Consideración
Leo que se pide el pago del IBI por parte de la Iglesia porque en un momento de crisis los ayuntamientos necesitan ese dinero. Pues se me ocurren varias cosas. Pero sólo me voy a detener en una de ellas.
Esta crisis está generando evidentemente una gran pobreza. ¿Qué están haciendo por los pobres las embajadas, los propietarios de los grandes palacios, las mezquitas … ? ¿Qué están haciendo por ellos los ayuntamientos? Porque a Cáritas llegan cada día personas enviadas por sus ayuntamientos para que les echemos una mano, ya que ellos andan justos de presupuesto.
No los envían a los sindicatos ni a los partidos, a las mezquitas o sinagogas, embajadas o legaciones diplomáticas. No. Los envían a las parroquias. En esta parroquia de un servidor llevamos atendidas más de 250 personas sin trabajo, de las que ya han conseguido empleo más de ochenta. Ayudamos con alimentos a treinta familias a las que se llena el carro de la compra dos veces al mes. Y no es nada. Compañeros tengo que atienden a ciento cincuenta familias. Pues ya ven la solución. Que el IBI lo pague la Iglesia para ayudar a salir de la crisis. Justo a la institución que más está haciendo por sacar adelante a esa gente, justo a ésa, que le suban los impuestos.
Y los partidos y sindicatos, tan solidarios ellos, ¿no van a renunciar a alguno de sus privilegios? ¿Nadie va a pedir que paguen el IBI las embajadas de USA, Rusia, Cuba o China? ¿Nadie exigirá impuestos a las mezquitas? ¿Y a Renfe? ¿Y a la duquesa de Alba? Pues no, que pague la Iglesia.
Y mientras, los ayuntamientos enviándonos pobres porque ellos no tienen presupuesto. Ayer nos llegaron otras dos familias derivadas desde la junta municipal. Resulta divertido: ¡Iglesia, paguen ustedes el IBI, que hay que salir de la crisis!"

P. Jorge, Sacerdote de la parroquia “Beata María Ana Mogas” (barrio Tres Olivos, Madrid)

domingo, março 04, 2012

Da aplicação do distributismo nas sociedades contemporâneas

Deixo abaixo mais um importante artigo de Juan Manuel de Prada, onde se analisa a viabilidade da aplicação do distributismo nas sociedades contemporâneas, transcrito com a devida vénia do “Religión en Libertad” e originalmente publicado no semanário católico madrileno “Alfa y Omega”.
[Fonte original aquí]


***

Hilaire Belloc y G.K. Chesterton consideraron siempre que el capitalismo era la gran plaga que impedía la floración de una sociedad auténticamente cristiana, por haber introducido la competencia en las relaciones conyugales, desarraigado al hombre de su tierra y nublado las virtudes de nuestros mayores, convirtiendo a los seres humanos en máquinas al servicio de la producción. «El capitalismo -escribiría Belloc- constituye una calamidad no porque defienda el derecho legal a la propiedad, sino porque representa, por su propia naturaleza, el empleo de ese derecho legal para beneficio de unos pocos privilegiados contra un número mucho mayor de hombres que, aunque libres y ciudadanos en igualdad de condiciones, carecen de toda base económica propia».

En la grandiosa encíclica Rerum novarum (1891), de León XIII, en la que se condenan las condiciones oprobiosas, lindantes con la esclavitud, en las que vivía una muchedumbre infinita de proletarios, hallarían Chesterton y Belloc el aliento para impulsar, en compañía de Arthur Penty y el padre Vincent McNabb, un nueva doctrina económica, alternativa al capitalismo y al socialismo, cuyo fin último es promover el Reinado Social de Cristo.

El distributismo se funda en las instituciones de la familia y la propiedad, pilares básicos de un recto orden de la sociedad humana; no cualquier familia, desde luego, sino la familia católica comprometida en la procreación y fortalecida por vínculos solidarios indestructibles. Tampoco cualquier propiedad, y mucho menos la propiedad concentrada del capitalismo, sino una propiedad equitativamente distribuida que permita a cada familia ser dueña de su hogar y de sus medios de producción. El trabajo, de este modo, deja de ser alienante y se convierte en un fin en sí mismo; y el trabajador, al ser también propietario, recupera el amor por la obra bien hecha, y vuelve a mirar a Dios, al principio de cada jornada, con gratitud y sentido de lo sagrado, santificando de veras sus quehaceres cotidianos.

Por supuesto, la sociedad distributista preconizada por Chesterton y sus amigos se rige por el principio de subsidiariedad y por la virtud teologal de la caridad, que antepone el bien común al lucro personal. Se trataría de lograr que cada familia cuente con los medios necesarios para su subsistencia, bien mediante la producción propia, bien mediante el comercio con otras familias o comunidades de familias, con las que se asociará para realizar obras públicas y garantizar la educación cristiana y el aprendizaje de los oficios para sus hijos.

Los gremios vuelven a ser, en la sociedad distributista, elemento fundamental en la organización del trabajo.

El distributismo no postula una sociedad de individuos iguales, empachados de una libertad que acaba destruyendo los vínculos comunitarios, sino una sociedad verdaderamente fraterna, regida por los principios de dignidad y jerarquía, en la que mucho más que el bienestar importa el bien-ser.

Algunos la juzgarán una sociedad utópica; yo la juzgo perfectamente realizable, en un tiempo como el presente, en que el capitalismo financiero y el llamado cínicamente Estado social de Derecho se tambalean, heridos de muerte. Sólo hacen falta católicos radicales e intrépidos, con poco que perder (el soborno del mundo) y mucho que ganar (la vida eterna).

Juan Manuel de Prada

sábado, março 03, 2012

Segundo Domingo da Quaresma


Suposto, pois - dai-me agora uma breve atenção - suposto pois que tudo o que se tem dito, tudo o que se diz e tudo o que se pode dizer da glória que nos espera no céu é tanto menos, e tão pouco, e tão nada que sem encarecimento se pode chamar mentira, que havemos, ou que podemos fazer para saber verdadeiramente o que é e como é a glória? Não há nem pode haver mais que um só meio, mas esse muito certo e adequado. E qual é? Ir ao céu, e vê-la. Perguntaram uma vez a Cristo dois que queriam ser seus discípulos onde morava: Rabbi, ubi habitas? E o Senhor, que não tinha casa na terra, senão no céu - donde nunca saiu ainda quando veio ao mundo - que respondeu? Venite, et videte: Vinde, e vê-lo-eis. E sem irem e verem não o podiam saber? Não. Excelentemente Alcuíno e Beda: Ideo non dixit ubi habitaret, sed illos ut venirent et viderent invitavit, quia habitatio, idest gloria Christi, videri quidem potest, verbis explicare non potest: Não disse o Senhor onde morava aos que o queriam saber, e somente lhes respondeu que viessem e vissem: Venit et videte, porque a morada de Cristo é a glória, e o que é, e como é a glória, só se pode ver, mas não se pode dizer: Videri potest, explicari non potest. Isto é o que respondeu Cristo, e isto é o que eu digo e o que só podem dizer os pregadores sobre este assunto. Façamos muito por ir ao céu, e lá veremos o que é a glória: Venite, et videte: Vinde, e vê-lo-eis. E quando, por mercê de Deus, formos ao céu, e virmos verdadeiramente o que é a glória, então veremos e conheceremos também quão pouca semelhança tem de verdade quanto cá se diz e se ouve.

Quando a Rainha Sabá viu a corte e Casa Real de Salomão, não só admirada do que se via, mas, como diz o texto sagrado, quase desmaiada de pasmo, rompeu nestas palavras: Non credebam narrantibus mihi, donec ipsa veni et vidi oculis meis, et probavi quod media pars mihi nuntiata non fuerit: major est sapientia tua et opera tua, quam rumor quem audivi. Beati viri tui, et beati servi tui, qui stant coram te semper: Eu, sapientíssimo rei Salomão, quando estava nas minhas terras - diz a rainha - muitas coisas tinha ouvido da vossa sabedoria, da vossa grandeza, da vossa corte e da magnificência da vossa casa, às quais porém não dava crédito, por me parecerem incríveis; mas, depois que vim e as vejo com meus olhos, já tenho conhecido e provado que nem a metade se me tinha dito do que verdadeiramente é. Bem-aventurados os vossos servos, e bem-aventurados os vossos cortesãos, pois têm e gozam a felicidade de estar sempre em vossa presença. Parece que não pudera dizer mais se falara com Deus na glória. E se as grandezas da corte e casa de Salomão as não pode crer nem perceber uma rainha tão sábia, senão depois de vir e ver: donec ipsa veni et vidi - e se tudo o que tinha ouvido na sua terra não chegava a ser a metade do que agora via com seus olhos, que proporção e que semelhança pode ter o pouco ou nada que cá dizemos e ouvimos, com o muito, com o infinito, com o imenso da glória que lá vêem os que a gozam? Por isso o Senhor e Autor dela nos diz: Venite et videte: Vinde e vede.

Mas o mal e a desgraça é que todos querem ver, e há muito poucos que queiram vir. Todos querem ver e gozar a glória, mas há poucos que queiram vir e seguir a Cristo pelo caminho que ele nos veio ensinar para chegarmos a ela. Se o divino Mestre trocara os termos, e assim como disse: Venite et videte, dissera: Videte et venite, se fora possível e conveniente que primeiro se nos desse vista da glória, e depois se nos prometessem os meios de a conseguir, como é certo que não seria necessário que Deus nos chamasse ou rogasse, senão que nós mesmos, arrebatados daquela imensa formosura e felicidade incompreensível, não só com vontade e desejo, mas com ímpeto e violência romperíamos por todas as dificuldades da vida, e pela mesma vida e mil vidas por alcançar tanto bem. Porém, que merecimento seria então o da fé, que prémio o da esperança, e que valor o da caridade, sendo necessária, e não livre? Para maior bem do mesmo bem, e para maior aumento da mesma glória nos pede Deus primeiro os passos e depois nos promete a vista: Venite, et videte.

Padre António Vieira, in “Sermão da Segunda Dominga da Quaresma”, pregado na Capela Real, em Lisboa, no ano de 1651

domingo, fevereiro 26, 2012

Primeiro Domingo da Quaresma


Na primeira e na segunda tentação tentou o demónio a Cristo como a Filho de Deus: na terceira como a puro homem. Por isso na terceira não disse: Se Filius Dei es: como tinha dito na primeira e na segunda. Tentou a Cristo, como se tentara a qualquer homem: esta é a razão e a diferença, porque só esta última tentação nos pertence propriamente a nós. Mas como poderá um homem, como poderá um filho de Adão resistir a uma tentação tão poderosa e tão imensa como esta que o demónio fez a Cristo? A Adão fez-lhe tiro o demónio com uma maçã, derribou-o: a Cristo fez-lhe tiro com o mundo todo. Ostendit ei omnia regna mundi. Mas sendo esta bala atirada a Cristo como a homem, e dando em um peito de carne, foi tão fortemente rebatida, que voltou com maior força contra o mesmo tentador: Vade retro. Um dos casos mais notáveis que sucederam em nossos dias, no famoso cerco de Ostende, foi este: Estava carregada uma peça no exército católico: entra pela boca da mesma peça uma bala do inimigo, concebe fogo a pólvora, sai outra vez a bala com dobrada fúria; e como veio e voltou pelos mesmos pontos, foi-se empregar no mesmo que a tinha atirado. Ó que bizarro e venturoso sucesso! Vade retro! Assim havemos de fazer aos tiros do demónio. Volte outra vez a bala contra o inimigo e vençamos ao tentador com a sua própria tentação. Não cortou David a cabeça ao gigante com a sua própria espada? Judite, sendo mulher não degolou a Holofernes com a sua? Pois assim o havemos nós de fazer; nem necessitamos de outras armas mais, que as mesmas com que o demónio nos tenta.

Mostrou o demónio a Cristo todos os reinos do mundo e suas glórias: disse-lhe que tudo aquilo lhe daria de uma vez, se lhe dobrasse o joelho. Parece que faz estremecer a grandeza desta tentação! Mas o demónio é que havia de tremer dela. Desarmou-se a si, e armou-nos a nós. Tu, demónio, ofereces-me de um lanço todo o mundo, para que caia, para que peque, para que te dê a minha alma, logo a minha alma, por confissão tua, vale mais que todo o mundo. A minha alma vale mais que todo o mundo? Pois não te quero dar o que vale mais pelo que vale menos: Vade retro. Pode-nos o demónio dar ou prometer alguma coisa que não seja menos que o mundo? Claro está que não. Pois aqui se desarmou para sempre: nesta tentação perdeu todas, se nós não temos perdido o juízo. Ouvi a Salviano: Quis ergo furor est viles a nobis animas nostras haberi, quas etiam diabolus putat esse pretiosas. Homens loucos, homens furiosos, homens sem entendimento, nem juízo; é possível que sendo as nossas almas na estimação do mesmo demónio tão preciosas, no vosso conceito e no vosso desprezo hão-de ser tão vis?! O demónio quando me quer roubar, quando me quer perder, quando me quer enganar, não pode deixar de confessar que a minha alma vale mais do que todo o mundo; e eu, sendo essa alma minha, não há-de haver no mundo coisa tão baixa, tão vã e tão vil , pela qual a não dê sem nenhum reparo? Quis furor est? Que loucura, que demência, que furor é este nosso? Muito mais obrigada está a nossa alma ao demónio, muito mais lhe deve que a nós. Ele a honra, nós a afrontamos. Envergonhou-se o demónio no primeiro lanço de oferecer menos por uma alma do que o mundo todo.

Caio César, como refere Séneca, mandou de presente a Demétrio duzentos talentos de prata, que fazem hoje da nossa moeda mais de duzentos mil cruzados. Não creio que haveria na nossa Corte quem não beijasse a mão real e aceitasse com ambas as mãos a mercê. Era porém Demétrio filósofo estóico, como se disséssemos, cristão de aquele tempo: e que respondeu? Si tentare me constituerat, toto illi fui experiundus imperio: Andai, levai os seus talentos ao imperador, e dizei-lhe que se me queria tentar, que havia de ser com todo o seu império: é, e chama-se senhor de todo o mundo? Com todo o mundo me havia de tentar. Não no fez assim o César, porque não conhecia a Demétrio, mas fê-lo assim o demónio, princeps hujus mundi, porque sabe o que vale uma alma. Se vos tentar o demónio com menos que todo o mundo, dai-vos por afrontado; e se vos tentar com todo o mundo, fique vencido. Quid prodest homini, si universum mundum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur? Que aproveita ao homem ganhar todo o mundo, adquirir todo o mundo, senhorear e dominar todo o mundo, se há-de perder a sua alma? Aut quam dabit homo commutationem pro anima sua? Ou que coisa pode haver de tanto peso e de tanto preço, pelo qual se haja de vender a alma, ou se haja de trocar? Este é o caso e a suposição em que estamos, nem mais nem menos. Oferece-nos o demónio o mundo, e pede-nos a alma. Considere e pese bem cada um se lhe está bem este contrato, se lhe está bem esta venda, se lhe está bem esta troca. Mas nós trocamos e vendemos, porque não pesamos.

Padre António Vieira, in “Sermão da Primeira Dominga da Quaresma”, pregado na Capela Real, em Lisboa, no ano de 1655.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Cinzas


Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem-na os olhos, a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter. Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura. O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem-no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança. Que me diga a Igreja que hei-de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser: tudo pó. Vamos, para maior exemplo e maior horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, responder-vos-ão os epitáfios, que só as distinguem: Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, e este que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente. De sorte que para eu crer que hei-de ser pó, não é necessário fé, nem entendimento, basta a vista. Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da fé e da verdade, que não só hei-de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente: Pulvis es? Como o pode alcançar o entendimento, se os olhos estão vendo o contrário? É possível que estes olhos que vêem, estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que andam e pisam, tudo isto, já hoje é pó: Pulvis es? Argumento à Igreja com a mesma Igreja: Memento homo. A Igreja diz-me, e supõe que sou homem: logo não sou pó. O homem é uma substância vivente, sensitiva, racional. O pó vive? Não. Pois como é pó o vivente? O pó sente? Não. Pois como é pó o sensitivo? O pó entende e discorre? Não. Pois como é pó o racional? Enfim, se me concedem que sou homem: Memento homo, como me pregam que sou pó: Quia pulvis es? Nenhuma coisa nos podia estar melhor que não ter resposta nem solução esta dúvida. Mas a resposta e a solução dela será a matéria do nosso discurso. Para que eu acerte a declarar esta dificultosa verdade, e todos nós saibamos aproveitar deste tão importante desengano, peçamos àquela Senhora, que só foi excepção deste pó, se digne de nos alcançar graça. Ave Maria.

O homem foi pó e há-de ser pó, logo é pó, pois tudo o que vive não é o que é, é o que foi e o que há-de ser. O exemplo da vara de Arão que se converte em serpente. Deus se definiu a Moisés como aquele que é o que é, porque só ele é o que foi e o que há-de ser. Se alguém puder afirmar o mesmo de si próprio também é digno de ser adorado. Enfim, senhores, não só havemos de ser pó, mas já somos pó: Pulvis es. Todos os embargos que se podiam pôr contra esta sentença universal são os que ouvistes. Porém como ela foi pronunciada definitiva e declaradamente por Deus ao primeiro homem e a todos seus descendestes, nem admite interpretação nem pode ter dúvida. Mas como pode ser? Como pode ser que eu que o digo, vós que o ouvis, e todos os que vivemos sejamos já pó: Pulvis es? A razão é esta. O homem, em qualquer estado que esteja, é certo que foi pó, e há -de tornar a ser pó. Foi pó, e há-de tornar a ser pó? Logo é pó. Porque tudo o que vive nesta vida, não é o que é: é o que foi e o que há-de ser.

Padre António Vieira, in “Sermão de Quarta-Feira de Cinza”, pregado na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma, no ano de 1672.