sábado, agosto 28, 2010

No centenário da Carta "Notre Charge Apostolique"


Cumpriu-se no passado dia 25 de Agosto, o centenário da Carta "Notre Charge Apostolique", de São Pio X, e pese embora esta efeméride já haver sido assinalada em diversos blogues amigos, era impossível este espaço, que se reclama do antimodernismo e do antiprogressismo, olvidá-la.

De facto, a "Notre Charge Apostolique" é não só um dos grandes documentos do pontificado de São Pio X, mas também da história da Igreja no século XX. Cem anos depois da sua publicação, mantém inteira actualidade. Se na "Pascendi" aquele Santo Papa demoliu a heresia modernista, de natureza eminentemente teológica, na "Notre Charge Apostolique" foi ainda mais longe e arrasou as falácias da heresia progressista cristã, de natureza essencialmente político-social, que viria a ocupar boa parte da Igreja a partir da década de 1960 e cujos efeitos depredatórios ainda hoje se fazem sentir.

Ora, conforme aqui escrevi em tempos, teriam tais depredações progressistas atingido o grau que atingiram, se um número realmente significativo de católicos tivesse sabido reconhecer e contradizer de imediato a ideia desfigurada que tais hereges dão de Cristo e do papel da sua Igreja no mundo, mediante a imprescindível leitura da "Notre Charge Apostolique", em vez de perder o precioso tempo de que dispunha com inanidades e até imoralidades? Creio firmemente que não!

E passo a citar São Pio X, na referida Carta:

Queremos chamar vossa atenção, Veneráveis Irmãos, sobre esta deformação do Evangelho e do carácter sagrado de Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus e Homem, praticada no Sillon e algures. Desde que se aborda a questão social, está na moda, em certos meios, afastar primeiro a divindade de Jesus Cristo, e depois só falar de sua soberana mansidão, de sua compaixão por todas as misérias humanas, de suas instantes exortações ao amor do próximo e fraternidade. Certamente, Jesus nos amou com um amor imenso, infinito, e veio à terra sofrer e morrer, a fim de que, reunidos em redor dele na justiça e no amor, animados dos mesmos sentimentos de mútua caridade, todos os homens vivam na paz e na felicidade. Mas para a realização desta felicidade temporal e eterna, Ele impôs, com autoridade soberana, a condição de se fazer parte de seu rebanho, de se aceitar sua doutrina, de se praticar a virtude e de se deixar ensinar e guiar por Pedro e seus sucessores. Ademais se Jesus foi bom para os transviados e os pecadores, não respeitou suas convicções erróneas por sinceras que parecessem; amou-os a todos para os instruir, converter e salvar. Se chamou junto de si, para os consolar, os aflitos e os sofredores, não foi para lhes pregar o anseio de uma igualdade quimérica. Se levantou os humildes, não foi para lhes inspirar o sentimento de uma dignidade independente e rebelde à obediência. Se seu coração transbordava de mansidão pelas almas de boa vontade, soube igualmente armar-se de uma santa indignação contra os miseráveis que escandalizam os pequenos, contra as autoridades que acabrunham o povo sob a carga de pesados fardos, sem aliviá-la sequer com o dedo. Foi tão forte quão doce; repreendeu, ameaçou, castigou, sabendo e nos ensinando que, muitas vezes, o temor é o começo da sabedoria, e que, às vezes, convém cortar um membro para salvar o corpo. Enfim, não anunciou para a sociedade futura o reinado de uma felicidade ideal, de onde o sofrimento fosse banido; mas, por lições e exemplos, traçou o caminho da felicidade possível na terra e da felicidade perfeita no céu: a estrada real da cruz. Estes são ensinamentos eminentemente sociais, e nos mostram em Nosso Senhor Jesus Cristo outra coisa que não um humanitarismo sem consciência e sem autoridade.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Por um novo movimento litúrgico: relembrar um texto fundamental


Aproximando-se a passos largos a realização da Conferência sobre a Missa Tradicional de rito latino-gregoriano, que decorrerá em Fátima entre os próximos dias 8 e 11 de Setembro, é este o momento ideal para relembrar um texto fundamental do então Cardeal Ratzinger, retirado da sua autobiografia recentemente traduzida e publicada em Portugal ("A Minha Vida - Lisboa, Livros do Brasil, 2010 - páginas 106 a 108), sendo os destaques da transcrição abaixo de minha responsabilidade:

O segundo grande acontecimento que ocorreu no começo dos meus anos de Ratisbona foi a publicação do "Missal", de Paulo VI, com a proibição quase total do "Missal" anterior, após uma fase de transição de cerca de seis meses. O facto de, após um período de experiências, que amiúde desfiguraram por completo a liturgia, se passar a ter um texto litúrgico vinculativo, era de saudar como algo seguramente positivo. Mas fiquei estupefacto com a proibição do "Missal" antigo, dado que nunca na história da liturgia se verificara uma situação semelhante. Quis-se passar a ideia de que era uma coisa normal. O "Missal" anterior tinha sido publicado por Pio V em 1570, na sequência do Concílio de Trento; era portanto normal que, passados quatrocentos anos e um novo Concílio, um novo papa publicasse um novo "Missal". Mas a verdade histórica é outra. Pio V limitara-se a reelaborar o "Missal" romano que se utilizava na época, coisa que aliás sempre acontecera ao longo dos séculos. Por seu lado, muitos dos seus sucessores reelaboraram ulteriormente este "Missal", sem nunca, porém, contraporem um "Missal" ao outro. Tratou-se sempre de um processo contínuo de crescimento e de purificação, em que, no entanto, a continuidade nunca era posta em causa. Um "Missal" de Pio V que tenha sido criado por ele, simplesmente nunca existiu. O que existe é a reelaboração que ele mandou fazer, como fase de um longo processo de crescimento histórico. A novidade, após o Concílio de Trento, foi de outra natureza: a invasão súbita da reforma protestante fizera-se sentir sobretudo na modalidade das reformas litúrgicas.

Não havia simplesmente uma Igreja católica e uma Igreja protestante, postas uma ao lado da outra, a divisão da Igreja ocorreu quase imperceptivelmente e teve a sua manifestação mais visível e historicamente mais incisiva nas mudanças ao nível da liturgia. Estas mudanças resultaram de tal maneira diversificadas ao nível local, que o limite entre o que era e não era católico se tornou, amiúde, bem difícil de definir. Esta situação de confusão, criada pela ausência de uma normativa litúrgica unitária e pelo pluralismo litúrgico herdado da Idade Média, fez com que Pio V decidisse que o "Missale Romanum", o texto da liturgia da cidade de Roma, por ser seguramente católico, devia ser introduzido em todo o lado onde não houvesse uma liturgia com, pelo menos, duzentos anos de existência. Onde este critério se verificava, podia manter-se a liturgia anterior, dado que o seu carácter católico era considerado seguro. Não se pode, por isso, falar de uma proibição relativa aos "Missais" anteriores e até ao momento regularmente aprovados.

Agora, pelo contrário, a promulgação do impedimento do "Missal" que se tinha desenvolvido ao longo dos séculos, desde o tempo dos sacramentais da Igreja antiga, implicou uma ruptura na história da liturgia, cuja consequências não podiam deixar de ser trágicas. Tal como já tinha acontecido muitas vezes, era razoável e plenamente em linha com as disposições do Concílio que se fizesse uma revisão do "Missal", sobretudo, tendo em consideração a introdução das línguas nacionais. Mas nesse momento aconteceu algo mais: destruiu-se o edifício antigo e, embora utilizando o material e o projecto deste, construiu-se um novo.

Não há dúvida de que, em algumas partes, este novo "Missal" trouxe verdadeiros melhoramentos e um real enriquecimento. Contudo, o facto de ter sido apresentado como um edifício novo - contraposto ao que fora construído ao longo da história - que se proibisse este último e que, de certa maneira, se concebesse a liturgia já não como um processo vital, mas como um produto de erudição especializada e de competência jurídica, trouxe-nos danos extremamente graves. Com efeito, deste modo desenvolveu-se a ideia de que a liturgia se "faz", de que não é uma realidade que exista antes de nós, - algo de "dado" -, mas que depende das nossas decisões. Consequentemente, esta capacidade de decisão não é só reconhecida aos especialistas ou a uma autoridade central, mas também em definitivo a qualquer comunidade que queira ter uma liturgia própria. O problema é que, quando a liturgia é algo que cada qual pode fazer à sua maneira, ela deixa de nos poder dar aquela que é a sua verdadeira qualidade: o encontro com o mistério, que não é produto das nossas acções, mas a nossa origem e a fonte da nossa vida. Para a vida da Igreja, é dramaticamente urgente um renovamento da consciência litúrgica, uma reconciliação litúrgica, que volte a reconhecer a unidade da história da liturgia e compreenda o Vaticano II não como ruptura, mas como momento evolutivo. Estou convencido de que a crise eclesial em que actualmente nos encontramos depende, em grande parte, da decadência da liturgia, que, por vezes, é mesmo concebida "etsi Deus non daretur": "como se se já não interessasse se Deus está ou não presente nela", se Ele nos fala e ouve ou não. Mas se na liturgia já não aparece a comunhão da fé, a unidade universal da Igreja e da sua história, o mistério de Cristo vivo, de que modo é que a Igreja manifesta a sua substância espiritual? Nesse caso, a comunidade celebra-se apenas a si mesma, coisa que não tem qualquer valor. E dado que a comunidade em si mesma não pode subsistir, mas é criada, na fé e como unidade, pelo próprio Senhor, torna-se inevitável que, nestas condições, se chegue ao ponto da fragmentação em partidos de todo o género, à contraposição partidária numa Igreja que se dilacera a si mesma. É por isso que precisamos de um novo movimento litúrgico, que recupere a verdadeira herança do Concílio Vaticano II.

Dia de Assunção em Fátima

Fátima, 15 de Agosto, Festa da Assunção de Nossa Senhora: a capela da Casa do Menino Jesus de Praga esteve completamente lotada, à cunha, repleta de fiéis portugueses (de Portugal, França e Alemanha), espanhóis e franceses, para assistirem ao Santo Sacrifício da Missa oficiado pelo Reverendo Padre Juan Maria de Montagut, Superior da Casa Autónoma da FSSPX de Portugal e Espanha. Foi uma magnífica jornada de fé, bem demonstrativa de que no nosso País há interesse - e muito - pela Missa Tradicional de rito latino-gregoriano, desde que a mesma seja devidamente providenciada e promovida!

E é bom saber, através de pequenos factos como o que agora adianto, que também em Portugal, lentamente, a tradição começa a conquistar o lugar que lhe pertence por direito próprio: a um grupo de jovens peregrinos tradicionalistas provenientes de França, que a partir de determinado ponto decidiram concluir a pé a sua peregrinação até Fátima, o pároco de uma importante localidade, por onde aqueles passaram, não hesitou em ceder-lhes a sua igreja paroquial, permitindo que aí o sacerdote que os acompanhava celebrasse a Missa de sempre! Graças a Deus que nem tudo está mal na Igreja portuguesa! Que os bons elementos desta ousem sair da "reserva de índios" em que presentemente se encontram!

domingo, agosto 08, 2010

Rito latino-gregoriano em Roma

Hoje assisti à Missa aqui. Rito latino-gregoriano em plena Roma, na paroquia tradicional criada pelo nosso querido Papa Bento XVI. Depois conto mais pormenores, quando regressar la para o final da semana.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Isto não é a Igreja

Conforme já aqui escrevi neste espaço, a obra do Padre Leonardo Castellani é um verdadeiro pronto-socorro espiritual para todos os católicos amigos da tradição que vivem no tempo presente. Perante a autêntica perseguição de que estes são vítimas por parte dos inimigos internos da Igreja e face ao desânimo que a mesma possa provocar entre alguns deles psicologicamente mais frágeis, como não recordar as palavras abaixo transcritas do grande sacerdote argentino, que as profere com pleno conhecimento de causa? Aqui ficam, actualíssimas:

En medio del camino de mi vida, la Iglesia, a la cual había estado sirviendo bien o mal amando - sí - tranquilamente, se me dio vuelta y me mostró una figura de hiena, altro que Madre; la cual figura se me aparece de nuevo cada día que hay viento norte. Fue la mayor tentación de mi vida, una tentación contra la Fe - la cual, como digo, vuelve a veces -, tentación que pisaba sobre hechos indubitables, o sea hechos de experiencia. Su formulación era esta: Si la Iglesia me persigue gratuitamente, no es una sociedad fundada por Cristo, la sociedad santa que nos enseñaron.

La respuesta - sencilla, pero difícil de actuar - era: Esto no es la Iglesia. Pero es la Jerarquía de la Iglesia, la más alta Jerarquía. No toda la Jerarquía; y algunos cuantos miembros de la Jerarquía, por alto que estén, no son la Iglesia. La Iglesia son los santos, los humildes, los rectos, los que tienen fe actuosa, los jerarcas iluminados sean pocos o muchos, la inmensa masa de los que practican la doctrina de Cristo calladamente.

La Iglesia no se conoce por los vestidos colorados; es más difícil de conocer que eso.

"Discurso con motivo de cumplir sus 70 años", citado por Sebastián Randle, in "Castellani", Buenos Aires, Vórtice, 2003, página 691.

terça-feira, agosto 03, 2010

Deixem fazer a experiência da tradição em Portugal! (3)

Tem absoluta razão a Teresa quando afirma que confiar em bispos modernistas é a desgraça. Aqui deixo ao conhecimento dos meus leitores mais uma triste história de sabotagem da Missa tradicional de rito latino-gregoriano, obviamente protagonizada por um triste figurão do episcopado lusitano. Como não podia deixar de ser…

***

Um casal de noivos - ele francês, ela portuguesa - pretendeu casar-se num conhecido santuário do norte do País. Dirigiram-se ao respectivo reitor para tratar das correspondentes formalidades e, certamente ignorando o estado de autêntica anomalia religiosa que se vive em Portugal, manifestaram-lhe a intenção de que a Missa do seu casamento fosse oficiada segundo o rito tradicional latino-gregoriano (possibilidade prevista pelo Motu Proprio "Summorum Pontificum", do Papa Bento XVI). Informaram-no também de que um sacerdote católico deles amigo, "em plena comunhão com Roma", se havia disponibilizado a celebrar esse casamento e a respectiva Missa em tal rito.

A resposta foi-lhes dada com prontidão e rapidez: que não, que não era possível oficiar a Missa tradicional de rito latino-gregoriano, que ele reitor não consentia nisso e o senhor bispo diocesano também não!

Em face disto, o pai do noivo expôs o caso à Comissão "Ecclesia Dei", que interveio, solicitando ao dito bispo diocesano que desbloqueasse a situação a contento dos noivos.

A resposta deste último, mais uma vez, chegou célere e expedita: que não desbloqueava nada e que proibia expressamente a celebração da Missa no rito pretendido!

Perante esta factualidade, e não desejando prolongar este litígio até por razões de disponibilidade temporal, os noivos em causa desistiram da ideia de casar em Portugal e optaram antes por fazê-lo em França, onde, apesar de tudo, parece que ainda há bispos efectivamente católicos e em comunhão com Roma...

domingo, julho 18, 2010

Conferência "Restaurando o Sagrado com a Santa Missa Tradicional" - notícias mais recentes

Da organização da conferência "Restaurando o Sagrado com a Santa Missa Tradicional" recebi mais uma comunicação, dando conta das últimas novidades relacionadas com este importantíssimo evento. Aqui a transcrevo para conhecimento de todos os meus leitores:

Graças à generosidade e oração de muitos, queremos comunicar o alargamento do prazo de inscrições até ao dia 15 de Agosto e também a supressão dos honorários. Assim todos os que estiverem inscritos, participarão no Workshop de forma gratuita!

Pedimos, pois, que divulguem, por todos os meios, com a ousadia evangélica que vos é conhecida, o Workshop! Seria excelente que Portugal enchesse a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima para a Missa Solemnis do dia 10. Este é um serviço à Igreja e por isso para a salvação de muitos!

Continuemos a rezar por este apostolado tão desprezado. Temos recebido de muitos a preocupação e receio de participar neste workshop, confiamo-los também às vossas orações, para que à semelhança dos Apóstolos sejam audazes na fidelidade à Igreja.

Confiemos ao Imaculado Coração de Maria os frutos deste projecto!

Os Cónegos Regulares de S. João de Câncio

Impedir a tirania

Um bispo que compreendeu perfeitamente a deriva totalitária da democracia contemporânea e o despotismo do número a ela associado. Que bom seria que o nosso episcopado português, ou ao menos parte dele, também se expressasse assim!...

sábado, julho 17, 2010

Deixem fazer a experiência da tradição em Portugal! (2)

Em teoria, apenas uma pessoa mentirosa e execrável, desprovida de honestidade intelectual e desguarnecida de probidade moral, supondo que a verdade consiste na adequação da realidade à sua inteligência e não o inverso, é que poderá arguir que não existe interesse da parte dos católicos portugueses pela Missa tradicional de rito latino-gregoriano. A quem sustentar por hipótese tal absurdo, convirá recordar o teor da sondagem que a Associação Paix Liturgique realizou recentemente em Portugal, bem como aquilo que então escrevi neste espaço acerca da mesma, já que contra factos não há argumentos!

Sobre este assunto, acrescentarei agora mais o seguinte: a implantação prática do “Summorum Pontificum” depende da existência de dois movimentos de vontade opostos, mas convergentes para um ponto comum de chegada: um, de cima para baixo, do episcopado para os fiéis; outro, de baixo para cima, dos fiéis para o episcopado. Ora, em Portugal, país em estado de necessidade e de autêntica anomalia religiosa, o episcopado quase em bloco tem omitido o primeiro daqueles movimentos, com vista a sabotar sistematicamente a afirmação da Missa tradicional em terras lusitanas, frustrando deste modo qualquer esforço que os fiéis leigos tentem fazer nesse sentido. Não faltam exemplos concretos do que afirmo, ocorridos em várias dioceses nacionais. De seguida, passo a dar conta de alguns.

Numa diocese, o bispo manifestou aos fiéis interessados na Missa tradicional que estes teriam de formar um grupo estável composto por “X” pessoas. Assim que o mesmo apareceu formado, e logo com “X” mais “Y” pessoas, o bispo em causa, com notória má fé negocial, decretou que tal grupo teria agora de se constituir numa associação de direito canónico presidida por ele ordinário local, depois de tramitado o processo - demorado… - de aprovação do respectivo estatuto associativo.

Noutra, o bispo, ademais de exorbitar prerrogativas ao sujeitar à sua aprovação pessoal a celebração da Missa tradicional, subordinou também essa eventual aprovação à emissão de um prévio parecer positivo do Secretariado Litúrgico da sua diocese, o qual até hoje, como é óbvio, não foi emitido…

Noutra ainda, um grupo de fiéis devidamente organizado conseguiu convencer um pároco a ceder-lhe uma capela com vista à celebração da Missa tradicional. O celebrante nem sequer seria esse pároco, mas um outro sacerdote diocesano. Acto contínuo, logo apareceu um cónego da Sé local a intimidar o referido pároco com diversas ameaças que se consumariam, caso tal projecto fosse para a frente. Não foi.

É bom de ver que todas estas exigências dos bispos portugueses não têm acolhimento nem na letra, nem no espírito do “Summorum Pontificum”. Ao invés, as mesmas são a manifestação cabal de um episcopado em estado de cisma prático face a Roma, com vontade de obstruir nesta matéria, pelos motivos que aqui atempadamente expus, tanto quanto possível a legítima e superior vontade papal.

Deste modo, concluo, insistindo: deixem fazer a experiência da tradição em Portugal!

Belo lembrete do Cardeal Cañizares


Belo lembrete de Sua Eminência o Cardeal Cañizares, a propósito do fim último do Motu Proprio "Summorum Pontificum", no prefácio que faz à edição espanhola do livro do Padre Nicola Bux, "La reforma de Benedicto XVI". À atenção de bispos lusitanos cismáticos e demais hereges progressistas.

Se cremos de verdade que a Eucaristia é realmente a “fonte e o ápice da vida cristã” - como nos recorda o Concílio Vaticano II - não podemos admitir que seja celebrada de um modo indigno. Para muitos, aceitar a reforma conciliar significou celebrar uma Missa que de um modo ou de outro devia ser “dessacralizada”. Quantos sacerdotes vimos ser tratados como “retrógrados” ou “anticonciliares” pelo simples facto de celebrarem de maneira solene, piedosa ou simplesmente por obedecerem cabalmente às rubricas! É peremptório sair desta dialéctica.

A reforma foi aplicada e principalmente vivida como uma mudança absoluta, como se se devesse criar um abismo entre o pré e o pós Concílio, em um contexto em que o termo “pré-conciliar” era usado como um insulto. Aqui também se deu o fenómeno que o Papa observa em sua recente carta aos bispos de 10 de Março de 2009: “Às vezes se tem a impressão de que nossa sociedade tenha necessidade de um grupo, ao menos, com o qual não tenha tolerância alguma, o qual se pode atacar com ódio”. Durante este ano foi o caso, em boa medida, dos sacerdotes e fiéis ligados à forma de Missa herdada através dos séculos, tratados muitas vezes como “leprosos”, como dizia de forma contundente o então cardeal Ratzinger.

Hoje em dia, graças ao Motu Proprio, esta situação está mudando notavelmente. E em grande medida está acontecendo porque a vontade do Papa não foi unicamente satisfazer aos seguidores de Dom Lefebvre, nem limitar-se a responder aos justos desejos dos fiéis que se sentem ligados, por diversos motivos, à herança litúrgica representada pelo rito romano, mas também, e de maneira especial, abrir a riqueza litúrgica da Igreja a todos os fiéis, tornando possível assim a descoberta dos tesouros do património litúrgico da Igreja a quem ainda o ignora. Quantas vezes a atitude dos que os menosprezam não é devida a outra coisa senão a este desconhecimento! Por isso, considerado a partir deste último aspecto, o Motu Proprio tem sentido transcendente à existência ou não de conflitos: ainda quando não houvesse nenhum “tradicionalista” a quem satisfazer, este “descobrimento” teria sido suficiente para justificar as disposições do Papa.
(destaques meus)

Fonte: blogue "Oblatus".

sábado, julho 10, 2010

"Nadando contra corriente", de Juan Manuel de Prada


Com a edição de "Nadando contra corriente" (Junho de 2010), compilação dos seus mais recentes artigos de opinião publicados em diversos órgãos de comunicação social, Juan Manuel de Prada prossegue a sua luta contra o progressismo anticristão, confirmando em pleno todo o crédito de bom combatente católico que "A Nova Tirania" justamente lhe granjeou. "Nadando contra corriente" é um livro que recomendo sem hesitações. Do que já li dele, gostei especialmente deste "La Monstrua", cuja transcrição deixo abaixo aos meus leitores, aconselhando também a leitura desta entrevista concedida por Prada ao sítio "Religión en Libertad".

La Monstrua

Uno de los signos más palmarios de la corrupción de la democracia es la subversión de las humanas jerarquías. ¿Quiénes están capacitados para gobernar? El Buey Mudo
[São Tomás de Aquino] lo expresaba con la lucidez sintética que lo caracteriza: «Qui in virtute intelectiva excedunt». O sea, quienes descuellan por la virtud de la inteligencia; pero hoy este orden jerárquico se ha subvertido, y nos gobiernan los malvados y los tontos. Cuando los malvados y los tontos alcanzan el poder democráticamente, puede decirse sin atisbo de duda que la sociedad ha alcanzado el grado máximo de corrupción; pues si encumbrar lo que es de naturaleza inferior es siempre una monstruosidad, cuando dicho encumbramiento se hace en nombre de la «voluntad popular» debemos entender que la monstruosidad se ha enquistado en la propia organización humana. No hace falta, sin embargo, leer al Buey Mudo para llegar a esta conclusión; basta escuchar las barbaridades de esa miembra del Gobierno llamado Bibiana Aído [ministra espanhola da igualdade, do governo ímpio de Rodríguez Zapatero].

Bibiana Aído ha justificado que las mujeres de dieciséis años puedan abortar sin consentimiento paterno, puesto que también pueden casarse y tener hijos. La pobrecita confunde, como señalaba el otro día el maestro Martín Ferrand, un silogismo con un sofisma; pero un pueblo que refrenda con su voto la subversión de las humanas jerarquías merece que le tomen el pelo, colándole sofismas como si fueran silogismos. El derecho ha establecido desde tiempos inmemoriales una edad mínima para que las personas puedan obligarse jurídicamente; edad que en la mayoría de los ordenamientos jurídicos vigentes oscila entre los dieciocho y los veintiún años. Pero el derecho sabe que la naturaleza es una fuerza motriz contra la que ni siquiera las leyes pueden alzarse; por eso, ante una expresión tan vigorosa -tan constitutiva- de la naturaleza humana como es el deseo de fundar una familia, las leyes declinan su imperio y aceptan que los menores puedan contraer matrimonio y procrear. El genio jurídico admite así que la naturaleza puede crear derecho; o que existen unos mandatos prejurídicos, fundados en la propia naturaleza humana, que las leyes deben respetar, exceptuándolos de sus mandatos jurídicos. Entonces llega Bibiana Aído y se saca de la manga el sofisma: puesto que la ley no impide a mujeres menores de edad casarse y tener hijos tampoco puede impedirlas que aborten. Y así una excepción legal fundada en la naturaleza se convierte en una excepción fundada en la abolición de la naturaleza; pues nada hay tan contrario a la naturaleza como que una madre «decida» aniquilar la vida que se gesta en su vientre.

Tal conversión del sofisma en silogismo sucede cuando se subvierten las humanas jerarquías. Así se puede establecer que una menor tiene capacidad decisoria para abortar; y también se puede emplear un criterio arbitrario de plazos para despenalizar el aborto. Hace cincuenta años, un feto era viable cuando había completado siete meses de gestación; hoy lo es cuando ha completado tan sólo veintidós semanas; dentro de cincuenta años, tal vez lo sea cuando apenas haya sido concebido. Cualquier criterio despenalizador del aborto que se funde en la viabilidad del feto es un sofisma; pues equivale a subordinar el derecho a la vida a los avances o retrocesos científicos. Pero tales aberraciones jurídicas sólo son concebibles cuando se ha instaurado el imperio del sofisma, que es lo que ocurre cuando el gobierno no se entrega a «qui in virtute intelectiva excedunt». Que una persona tan huérfana de «virtud intelectiva» como Aído haya alcanzado la dignidad de ministra nos confirma que cada pueblo tiene los gobernantes que se merece; y puesto que encumbrar lo que es de naturaleza inferior es siempre una monstruosidad, es natural que nos gobiernan monstruas.

Juan Manuel de Prada acerca do Padre Leonardo Castellani

"O Credo do Incrédulo", do Padre Leonardo Castellani




O famoso "Credo do Incrédulo" (que também poderia denominar-se "Credo do Herege Progressista"), de autoria do grande Padre Leonardo Castellani, em versão vídeo.

segunda-feira, junho 28, 2010

A mim não me interessa o que o Senhor Ordinário Castrense aceita!

Ouvi em tempos a um sacerdote da FSSPX esta história, ocorrida numa igreja paroquial de França, no final dos anos 60, começo dos anos 70, no período de grande turbulência que se seguiu ao encerramento do Concílio V-2. Durante a homília de uma Missa dominical, o pároco perorava nos seguintes termos, nele já habituais: "Sobre isto eu penso que… Sobre aquilo eu penso que… Sobre aqueloutro eu penso que…" Exasperado com este tique, um paroquiano interrompeu tal homília (algo que só se deve fazer em circunstâncias absolutamente excepcionais) e disse: "A mim não me interessa o que o Senhor Padre pensa! Interessa-me antes o que a Igreja pensa!"

Vem esta história a propósito de uma recente e deplorável entrevista concedida por D. Januário Torgal Ferreira, Ordinário Castrense, ao jornal "I". Em tal entrevista, que nem chega a escandalizar (capacidade que o entrevistado, com a sua sede de protagonismo mediático exibicionista, perdeu há muito), D. Januário declara aceitar que dois homens vivam juntos no âmbito de uma relação homossexual. Ora, a este respeito, à imagem do paroquiano francês da história acima relatada, afirmo: "A mim não me interessa o que o Senhor Ordinário Castrense aceita ou deixa de aceitar! Interessa-me antes o que a Igreja aceita ou não!"

E o facto é que a Igreja não aceita, nunca aceitou e jamais aceitará que dois homens possam viver juntos no âmbito de uma relação homossexual! Para bispos lusitanos heréticos e cismáticos "de facto" face a Roma, demais católicos de letreiro e trastes quejandos, nada melhor do que recordar o magistério ordinário constante (e portanto infalível) da Igreja sobre esta matéria, bem plasmado nas "Considerações sobre os Projectos de Reconhecimento Legal das Uniões entre Pessoas Homossexuais", da Congregação para a Doutrina da Fé, redigidas em 2003 pelo então Cardeal Joseph Ratzinger e aprovadas pelo Papa João Paulo II, de que aqui cito um trecho:

Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimónio e a família. O matrimónio é santo, ao passo que as relações homossexuais estão em contraste com a lei moral natural. Os actos homossexuais, de facto, "fecham o acto sexual ao dom da vida. Não são fruto de uma verdadeira complementaridade afectiva e sexual. Não se podem, de maneira nenhuma, aprovar".

Na Sagrada Escritura, as relações homossexuais "são condenadas como graves depravações... (cf. Rm 1, 24-27; 1 Cor 6, 10; 1 Tm 1, 10). Desse juízo da Escritura não se pode concluir que todos os que sofrem de semelhante anomalia sejam pessoalmente responsáveis por ela, mas nele se afirma que os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados". Idêntico juízo moral se encontra em muitos escritores eclesiásticos dos primeiros séculos, e foi unanimemente aceite pela Tradição católica.

Também segundo o ensinamento da Igreja, os homens e as mulheres com tendências homossexuais "devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Deve evitar-se, para com eles, qualquer atitude de injusta discriminação". Essas pessoas, por outro lado, são chamadas, como os demais cristãos, a viver a castidade. A inclinação homossexual é, todavia, "objectivamente desordenada", e as práticas homossexuais "são pecados gravemente contrários à castidade".

Mais claro é impossível!

Ler também sobre este assunto:

- Portuguese Bishop: OK with men who "live" with other men; for artificial contraception [D. Januário Torgal Ferreira em "grande estilo" no "Rorate-Caeli"!];

- "Conclusões e Conclusões", no "Logos";

- "Notícia de última hora: Igreja cismática portuguesa - bispo concorda com homem que ama e vive com outro homem", no "Tradição Católica";

- "Da contínua apostasia na Igreja portuguesa", na "Tribuna".

sábado, junho 26, 2010

Roy Campbell


Roy Campbell. Poeta a redescobrir. Sul-africano anglófono. Zulu branco. Convertido ao Catolicismo. Participante na Cruzada Espanhola. Tradutor de Camões e Fernando Pessoa.

Christ in Uniform

Close at my side a girl and boy
Fell firing, in the doorway here,
Collapsing with a strangled cheer
As on the very couch of joy,
And onward through a wall of fire
A thousand others rolled the surge,
And where a dozen men expire
A hundred myrmidons emerge -
As if Christ, our Solar Sire,
Magnificient in their intent,
Returned the bloody way he went,
Of so much blood, of such desire,
And so much valour proudly spent,
To weld a single heart of fire.

Roy Campbell, in "Selected Poems - Edited and introduced by Joseph Pearce", London, The Saint Austin Press, 2001


Evocando novamente Couto Viana

A propósito de uma mesquinha polémica recentemente ocorrida, bem demonstrativa do primarismo mental de quem a provocou, apetece-me evocar novamente Couto Viana.

A Minha Terceira Grande Guerra

Menino, ouvi que a pátria da minha Mãe, a Espanha,
Fuzilava, vermelha, na fronteira
Que o rio Minho banha,
O fidalgo, o burguês, o padre, a freira.

Logo a minha cidade
Se encheu de fugas precipitadas.
E havia mais convívio e liberdade
No cinema, nos jardins, nas esplanadas.

Falava-se galego em toda a parte.
E eu via, com alegre sobressalto,
Um comboio de víveres que parte;
Um jovem se alista, braço ao alto.

Morrera minha Avó ao cercarem Oviedo.
González Peña, seu sobrinho,
Combatia em Madrid. Mas isto era um segredo
Que feria a família como a espada do espinho.

O hino Cara al Sol, com letra tão bela,
Cantava-o minha Mãe. Clarim nos meus ouvidos!
E, enquanto eu me sonhava de guarda a cada estrela,
Sem distinção de credos, era Ela
Que me punha a rezar por todos os caídos!

António Manuel Couto Viana, de "O Senhor de Si", in "António Manuel Couto Viana - 60 Anos de Poesia", Lisboa, Imprensa Nacional, 2004.

sábado, junho 19, 2010

Saramago segundo Nosso Senhor

Est' ano Senhora trago
Comigo um pesado encargo
Intenção extra e concisa:
A de orar por Saramago
Que coitado bem precisa

Não tivesse Cristo-Rei
Um tão imenso fair-play
E já irmão Saramago
Agora teria pago
Com juro e língua de palmo
O seu sacrílego salmo…

José Saramago, visto
Ao vivo por Jesus Cristo…
Saramago o escritor
Biografadinho e descrito
Segundo Nosso Senhor:
Havia de ser bonito!...

O que salva é Cristo-Rei
Ter um tão grande fair-play
Quando não Virgem Maria
Esse Evangelho vermelho
Onde é que já não estaria

Proponho assim, por descargo
- Como quem dá a camisa -
Rezarmos por Saramago
Que bem precisa coitado…!
Mãe dos Céus, Oh se precisa.


Rodrigo Emílio

segunda-feira, junho 14, 2010

Os Sentinelas da Noite



Belíssimo documentário recentemente laureado com o Prémio Marcel Julian 2010, do Clube Audiovisual de Paris, e que reporta o quotidiano dos monges do Barroux. O respectivo DVD pode ser encomendado directamente do sítio da própria Abadia (a entrega postal do meu exemplar foi feita em menos de uma semana).

Pensar e agir em conformidade com a modernidade socrática - 2


Professor Orlando Fedeli


Nunca conheci pessoalmente Orlando Fedeli, mas desde que reverti ao Catolicismo e descobri a Tradição, passei a ler com grande interesse e proveito todos os artigos que o Professor publicava no sítio da "Montfort", e isto apesar da minha discordância quanto ao fundo de alguns e à forma de outros. Sem prejuízo, jamais deparei neles com a defesa de qualquer erro contra as verdades de fé e moral católicas. De facto, a qualidade da árvore afere-se pelos frutos que dá: nos seus escritos, Orlando Fedeli posicionou-se sempre como um homem que amava com intensidade a Igreja, a Tradição e o Papado, e que não hesitava em testemunhar publicamente o nome de Cristo! Coisa pouco comum nos dias de hoje. Que descanse na Paz do Senhor!