domingo, março 14, 2010

Defender o rito tradicional latino-gregoriano é defender a vida humana


O rito latino-gregoriano, sendo o rito comum, perpetuamente válido e irrevogável da Igreja do Ocidente, está acima de quaisquer contingências temporais, e é por isso também um rito sempre jovem, actual e ultramoderno, que constitui a forma mais radical de se ser antimoderno. São enormes as potencialidades que estão inerentes ao seu génio, entre as quais, em plano de evidência, a defesa da vida humana a partir do momento da concepção.

De facto, urge não esquecer o teor do sábio brocardo latino " Lex Orandi, Lex Credendi, Lex Vivendi", ou seja, a forma como se reza exprime o modo como se crê, e o modo como se crê expressa a maneira como se vive. Assim, enfatizando o rito latino-gregoriano magistralmente as verdades fundamentais de fé e moral católicas, rezar segundo aquele é exprimir a crença em tais verdades (entre as quais, a da defesa da vida humana inocente), em reflexo do próprio estilo de vida religiosa e moral de quem crê. Deste modo, percebe-se por que motivo os hereges progressistas, inimigos denodados das verdades de fé e moral católicas, bem como do magistério extraordinário e ordinário constante da Igreja, são outrossim os principais inimigos do rito latino-gregoriano, hostilizando-o tanto quanto lhes é possível: este, por ser a expressão pública máxima daquelas verdades, é-lhes insuportável.

Sem prejuízo, mesmo nos meios católicos tradicionais, não está totalmente compreendido o valor catequético do rito tradicional e a sua importância para a defesa da vida humana e para o combate antiaborcionista; portanto, deixo à consideração dos meus leitores um interessante artigo escrito por Deborah Morlani, colaboradora do "New Liturgical Movement" que se tem dedicado a aprofundar este assunto, bem como uma entrevista fundamental de Sua Eminência o Cardeal Cañizares, sobre o mesmo tema, concedida ao extraordinário Life Site News.

Lidas tais recomendações, acredito ser lícito perguntar: não se terá devido o grande avanço das legislações aborcionistas nos últimos quarenta anos, em especial nos países outrora católicos, também à marginalização sofrida durante o mesmo período de tempo pelo rito tradicional?...

O massacre da população europeia - o maior e mais silencioso genocídio de todos os tempos

Tomo conhecimento, através desta notícia, das horrendas dimensões que o aborto alcançou na União Europeia: os europeus são hoje massacrados nos ventres maternos como nunca o foram antes nos campos de batalha, em proporções que consubstanciam o maior e mais silencioso genocídio de todos os tempos.

Ora, a criminosa desordem política que tolera, permite e até apoia este estado de coisas, é necessariamente ilegítima, iníqua e ímpia, e merece ser combatida por todos os meios moralmente lícitos e admissíveis. E com respeito à monstruosidade aborcionista, apetece-me citar um trecho certeiro de Juan Manuel de Prada, retirado do seu livro "A Nova Tirania" (Leiam-no! Leiam-no!):

O progressista é o sujeito que conseguiu fazer passar o seu cinismo por filantropia.

(…) No seu empenho por evitar olhar o rosto do outro, o progressista desenvolveu uma espécie de antropologia bizantina, que faz depender a condição humana de uma vida em gestação do tamanho dessa vida, da viabilidade dessa vida, das semanas de gestação, e por aí fora. O progressista pretende fazer-nos crer que um feto de dez semanas não merece protecção jurídica porque não pode desenvolver-se independentemente da mãe. Mas a inviolabilidade da vida humana não está, de modo nenhum, dependente do facto de ser ou não viável; pelo contrário, uma vida torna-se tanto mais valiosa quanto mais desvalida se encontra, quanto mais exige o nosso auxílio para continuar a viver, quando não tem poder, nem voz para se defender. A inviolabilidade da vida depende, em suma, da nossa decisão de olhar para ela de frente, reconhecendo nela uma dignidade inalienável.

(…) Para conseguir ver a dignidade de uma vida em gestação é necessário, evidentemente, olhá-la com os olhos do coração, que é onde reside a nossa liberdade de escolher entre o bem e o mal. E, como o progressista foge às decisões morais, como nem sequer aceita que haja bem e mal, recorre ao mais repelente fisiologismo para determinar de forma ditatorial que uma vida em gestação não é vida, porque não tem rosto. E, como não tem rosto, não pode ser sujeito; por isso, é um objecto do qual posso dispor livremente, um objecto que posso destruir, se for caso.

Mas como atrás dissemos, o progressista tem necessidade de disfarçar o seu cinismo, dando-lhe a forma de filantropia. E, para justificar a matança de vidas em gestação, tem necessidade de invocar direitos. O progressismo é uma fábrica de salsichas de direitos. E assim, o progressista saca da manga um filantrópico "direito ao aborto": a mulher tem o direito de decidir sobre a sua qualidade de vida; a sociedade tem o direito de se desembaraçar de crianças indesejadas, para garantir aos cidadãos elevados níveis de bem-estar, etc. O progressista disfarça as expressões do interesse egoísta, conferindo-lhes a forma de direitos; e, neste labor de camuflagem, não hesita em negar a dignidade da vida, enquanto esta não tiver rosto. Mas é a nossa própria dignidade que está dependente do olhar que dirigimos a essas vidas sem rosto; quando as tratamos como objectos dos quais podemos dispor a nosso bel-prazer, estamos a negar-lhes dignidade a elas, mas também a estamos a negar a nós próprios. Estamos, muito simplesmente, a deixar de ser humanos.

E o progressista, que já deixou de ser humano, tem necessidade de fingir que continua a sê-lo; para isto, recorre a espaventos filantrópicos.

Em peregrinação pela Terra Média


Muito por culpa do amigo Fray Trabucaire, tenho estado ausente em peregrinação pelas bandas da Terra Média, que é uma Terra Cristã, em redescoberta do fantástico universo de Tolkien (de resto, um católico convicto e denodado defensor do rito tradicional); o blogue, esse, segue já dentro de momentos.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Eugénio Corti e "O Cavalo Vermelho"


Terminei há não muito a leitura das quase mil páginas da edição em língua francesa d’”O Cavalo Vermelho” ("Le Cheval Rouge"), do italiano Eugénio Corti. Escritor quase desconhecido em Portugal (acerca dele, encontrei redigido no nosso país tão-só este artigo), é todavia um autor aclamado em Espanha, França e, sobretudo, Itália, com uma longa carreira literária iniciada em 1947.

“O Cavalo Vermelho” é a obra-prima de Corti: originalmente publicado em 1983, trata-se de um romance notável que cobre trinta e cinco anos da história italiana entre 1939 e 1974, com especial incidência no período da II Guerra Mundial, por onde perpassam constantemente as firmes convicções católicas do autor. Este conduz-nos a um ritmo avassalador, por intermédio das diferentes personagens da sua obra, das terríveis batalhas da Frente Leste aos furiosos combates da Linha Gótica, no centro de Itália (Corti combateu em ambos os teatros: no primeiro, como oficial do Exército Real Italiano, participando na pavorosa retirada italiana dos arredores de Estalinegrado; no segundo, depois do armistício de Setembro de 1943, como membro do Exército de Libertação Nacional Italiano); da guerra suja entre as forças leais a um Mussolini cingido ao território da República Social Italiana e a feroz guerrilha comunista; da Itália do fim guerra, na iminência de cair sobre o controlo do Partido Comunista de Palmiro Togliatti (travado quase miraculosamente por uma democracia-cristã então ainda fiel aos seus princípios doutrinários de base) até à Itália de 1974, dos anos de chumbo, descristianizada e corrompida, em grande parte por culpa da rendição católica sucedida com o V2. De permeio - e que permeio! -, Corti retrata-nos os devastadores efeitos da negação da ordem moral cristã não só pelos dois irmãos inimigos que foram o nacional-socialismo e o comunismo soviético, mas também pelo relativismo moral hodierno, guiando-nos sucessivamente pela inumanidade nazi, pela selvajaria inimaginável do diabólico gulag vermelho (por si observado em primeira mão), em páginas escritas ao nível do melhor Soljenitsine, e, enfim, pela degeneração ética das sociedades ocidentais contemporâneas.

Pujante defesa do “tudo instaurar em Cristo”, mensagem principal d’”O Cavalo Vermelho”, Corti demonstra que tal instaurar deve ser sempre o objectivo último de todo o católico digno desse nome, na medida das suas possibilidades, em quaisquer circunstâncias a que Deus o tenha destinado, mesmo no meio das ruínas: na vida pessoal; na vida familiar; na vida pública.

Enfim, este é um livro que me prendeu como há muito não sucedia, e que me fez criar uma empatia quase instantânea com o seu autor e algumas das suas personagens. Corti é definitivamente um escritor católico na mais pura acepção da palavra! Leitura recomendada em absoluto!

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Juan Manuel de Prada em português


Já está disponível nas livrarias, com a chancela da "Aletheia", a edição portuguesa do imprescindível "A Nova Tirania - O Senso Comum contra o Progressismo Matrix", de Juan Manuel de Prada, escritor espanhol convertido ao Catolicismo e que é actualmente um dos mais importantes defensores públicos da religião católica no país vizinho, através das colunas que publica com regularidade em órgãos de comunicação social como o jornal "ABC", a revista digital "XL Semanal" ou ainda o próprio "L'Osservatore Romano", da Santa Sé.

Em todos estes espaços, Prada insurge-se contra a ditadura totalitária do relativismo ético-moral que oprime as decadentes sociedades ocidentais modernas, bem como contra o fundamentalismo secularista e laicista que define caracteristicamente de "progressismo matrix". Que vem a ser este progressismo? Dê-se a palavra ao autor, também como forma de estimular a sua descoberta pelos meus leitores:

O progressismo Matrix converteu-se (…) numa espécie de fé messiânica: instaurou uma nova ordem, impôs paradigmas culturais inatacáveis, estabeleceu uma nova antropologia que, prometendo ao homem a libertação final, lhe reserva apenas o suicídio futuro. E a única ordem capaz de se erguer contra esta nova ordem quase-religiosa é a ordem religiosa, que restitui ao homem a sua verdadeira natureza e lhe propõe uma visão cabal do mundo, que ataca os fundamentos da ilusão na qual assenta a nova tirania, dissolvendo as falsificações. Trata-se de uma visão que a nova tirania combate denodadamente; com efeito, essa ordem religiosa é a única fortaleza que ainda lhe falta derrubar, para que o seu triunfo seja completo. O laicismo dominante acusa a Igreja de se imiscuir na política, aduzindo aquela sentença evangélica que costuma ser arvorada por pessoas que nunca leram o Evangelho: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus." Mas, afinal, quais são as coisas que são de César? São as coisas temporais, as realidades terrenas; mas não são os princípios de ordem moral que resultam da natureza humana, nem os fundamentos éticos da ordem temporal. A nova tirania, que tão zelosa se mostra de expandir as "liberdades" dos seus súbditos, não hesita em recusar à Igreja a liberdade de ajuizar a da moralidade da sua actuação temporal, ciente que está que tal juízo contém uma radical subversão da ilusão sobre a qual assenta a nova tirania. Anseia por uma Igreja farisaica e corrompida, que renuncie a restituir ao homem a sua verdadeira natureza e que acate esse "mistério da iniquidade" que é a adoração do homem; anseia por uma Igreja que se ajoelhe diante de César, convertida na "grande rameira que fornica com os reis da terra" de que nos fala o Apocalipse (destaques meus).

Em conclusão, como se constata pelo trecho supra citado, este livro é de leitura absolutamente obrigatória e uma munição fundamental no terrível combate que todos os católicos dignos desse nome travam contra o monstro progressista em ambas as frentes da Igreja - a externa e a interna.

Por último, mas não menos importante, sublinhe-se que Prada é um grande admirador da obra do Padre Leonardo Castellani e divulgador da mesma em Espanha, o que faz com que a sua pessoa me seja ainda mais simpática.

Para quem pretenda conhecer melhor a obra e o pensamento do autor, deixo aqui ainda as seguintes ligações:

- Escritor Juan Manuel de Prada alerta para a "Nova Tirania";

- Juan Manuel de Prada: La Nueva Tiranía (El Matrix Progre);

- La España católica tiene un nuevo heraldo: Juan Manuel de Prada.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

A propósito do centenário da república - 1


Tem a palavra Mestre Ramalho Ortigão, que até parece discorrer sobre a III República, a actual:

Pobres homens, mais dignos de piedade que de rancor os que imaginam que é com um carapuço frígio, talhado à pressa em pano verde e vermelho, manchado no lodo de uma revolta num bairro de Lisboa, que mais dignamente se pode coroar a veneranda cabeça de uma pátria em que se geraram tantos grandes homens, a cuja memória imperecível, e não aos nossos mesquinhos feitos de hoje em dia, devemos ainda os últimos restos de consideração a pudemos aspirar no mundo! Pobre gente! Pobre pátria!

(…)

Tais resultados, que eu acho melhor encarar pelo lado cómico, que pelo lado trágico, demonstram, com a evidência científica de uma operação química, que a experiência política da Rotunda prolongada até hoje não está deixando, no fundo das retortas, senão indisciplina, desordem, deseducação, desnacionalização, imoralidade, irreligião, empobrecimento, charlatanismo, cabotinismo e miséria.

Evaporada a infantil e burlesca ilusão de que um país pode continuar a viver, como vive uma minhoca em postas, uma vez esquartejado nas suas tradições, nas suas crenças, nos seus usos e costumes, na continuidade da sua experiência histórica, governado por um pessoal improvisado pelo favoritismo político, com uma instrução pública de pedantes, uma religião de ateus, uma polícia de sicários, uma maioria parlamentar de ineptos, um ministério de energúmenos, uma burocracia de vagabundos e uma diplomacia de curiosos, da qual só é dado esperar através das chancelarias e dos salões da Europa a mais estercoraria pingadeira de "gaffes".

Citado por Fernando Campos, in "Os Nossos Mestres ou Breviário da Contra-Revolução", Lisboa, Portugália Editora, 1924 - páginas 76 e 78.

Um livro para ler ou reler no centenário da república


Numa altura em que já se iniciaram as comemorações do centenário da república, ler ou reler o livro "Padre Barros-Gomes - Vítima da República", da autoria do Padre Bráulio Guimarães, publicado originalmente em 1939 e reeditado pela "Aletheia" em 2007, é uma excelente ocasião para todos - em especial os mais distraídos - recordarem a verdadeira e perversa natureza da coisa objecto das comemorações em curso.

Relembre-se que o Padre Barros Gomes, insigne cientista e ilustre sacerdote lazarista, foi barbaramente assassinado por um grupo de facínoras republicanos no próprio dia 5 de Outubro de 1910, em Arroios, Lisboa, num acto que, desde logo, definiria a essência criminosa do novo regime e dos seus apaniguados, que os tristes do costume tentam agora, cem anos depois, fazer passar por heróis, como se porventura a verdadeira memória histórica se tivesse desvanecido.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Uma renúncia com a qual a Igreja só terá a ganhar

Em postal anterior referi que D. José Policarpo se aproxima do limite de idade para o exercício de funções. A este respeito, escreve o sempre bem informado Paco Pepe, com o seu bom humor característico, que a Igreja só terá a ganhar com a renúncia - entre outros cardeais que refere - do actual Patriarca de Lisboa.

Concordo em pleno com o responsável do imprescindível "La Cigüeña de la Torre". De facto, não deixará quaisquer saudades a forma como D. José Policarpo governou a diocese olissiponense, já que num plano interno alinhou sempre com um progressismo obsoleto radicalmente anticatólico e em nada beneficiou a tradição, e num plano externo se mostrou incapaz de defender com um mínimo de firmeza e sem quaisquer ambiguidades, mormente face ao poder político socialista, o magistério constante da Igreja em matérias como o aborto ou emparelhamento de homossexuais.

Na verdade, e afirmo-o sem qualquer prazer, ao seu múnus episcopal no Patriarcado de Lisboa só pode aplicar-se este trecho do "Sermão da Epifania", pregado pelo grande Padre António Vieira, no ano de 1662, na Capela Real:

Sabeis, diz o supremo Pastor da Igreja, quando foge o que não é verdadeiro pastor? Foge quando vê injustiças, e em vez de bradar contra elas, as cala: foge, quando devendo sair a público em defesa de verdade, se esconde, e esconde a mesma verdade debaixo do silêncio. Bem creio que alguns dos que me ouvem, teriam por mais modéstia e decência, que estas verdades e estas injustiças se calassem; e eu o faria facilmente como Religioso, sem pedir grandes socorros à paciência: mas que seria, se eu assim o fizesse? Seria ser mercenário e não pastor: Fugit, quia mercenarius est: seria ser consentidor das mesmas injustiças que vi, e estando tão longe, não pude atalhar: Fugit, quia injuistitiam vidit, et tacuit: seria ser proditor das mesmas ovelhas que Cristo me entregou, e de que lhe hei-de dar conta, não as defendendo, e escondendo-me onde só as posso defender: Fugit, quia se sub silentio se abscondit.

sábado, janeiro 30, 2010

Um exercício útil e interessante

Cotejar a carta de proclamação do ano sacerdotal por ocasião do centésimo quinquagésimo aniversário da morte de São João Maria Vianney, Cura d'Ars, escrita pelo Santo Padre Bento XVI, com estoutro artigo intitulado "A Imagem do Padre", de autoria de D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa, publicado há quinze dias no jornal "Correio da Manhã", é um exercício útil e interessante que permite aquilatar, uma vez mais, o estado de desvario doutrinário a que chegou a hierarquia católica em Portugal.

Naquela, o Papa propõe a pessoa do Santo Cura d'Ars como exemplo a ser seguido por todos os sacerdotes pelo seu amor ao Santo Sacrifício da Missa, pelo seu cuidado com a cura de almas, pela santidade modelar da sua vida; neste, D. Carlos Azevedo, em contradição directa com o Papa, não hesita em afirmar entre muitas outras barbaridades saídas directamente da vulgata progressista: Partiram-se, quebraram--se os modelos presbiterais do passado. Não podemos crer que se possa voltar a posições e perspectivas do passado, ainda que renovada a fachada e realizadas acomodações de emergência. Não, definitivamente. O amanhã não será continuação pacífica do ontem.

Percebe-se perfeitamente quem é que D. Carlos Azevedo pretende atacar com estas linhas e sobretudo com estas entrelinhas. Esse alguém mais não é do que o próprio Bento XVI e a sua obra de restauração católica ao nível da hermenêutica da continuidade, da reforma da reforma litúrgica e da defesa da Santa Missa tradicional de rito latino gregoriano. Em contraposição, com característica falta de imaginação progressista e em autêntica hermenêutica da ruptura (o amanhã não será a continuação pacífica do ontem), propõe sacerdotes abertos ao mundo (sabemos aonde conduziu essa abertura a um dos inimigos da alma nestes últimos cinquenta anos, e o Santo Padre lamenta-o amargamente na sua carta…), quiçá sacerdotes mundanos, provavelmente trajados de fato e gravata ou pólo "Lacoste", com voz afectada e modos efeminados, capazes das piores cedências perante os disparates do mesmo mundo, sendo tudo menos outros Cristos. De permeio, o Bispo Auxiliar de Lisboa faz ainda uma capciosa defesa da pluralidade de espiritualidades (que sempre existiu na Igreja), a qual, neste contexto, devidamente decifrada, não passa de uma apologia do relativismo e até do indiferentismo religioso. Com D. Carlos Azevedo estamos, de facto, muito longe do sim, sim, não, não evangélico.

Em resumo, o Patriarcado de Lisboa continua a ser uma praça-forte do modernismo e do progressismo em Portugal. Numa altura em que D. José Policarpo se aproxima do limite de idade para o exercício de funções episcopais, seria bom que Roma, ao mais alto nível, começasse a pensar inverter a situação deplorável que persiste na principal diocese portuguesa. A exemplo do que sucedeu recentemente com a arquidiocese de Malines-Bruxelas, na Bélgica.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Destrinçar o estrutural do conjuntural

Concordo globalmente com o teor dos artigos (aqui e aqui) que o Padre Gonçalo Portocarrero tem escrito a propósito da questão dos emparelhamentos homossexuais. De facto, como já sublinhei anteriormente, a partir do momento em que a lei humana positiva deixa de estar subordinada à ordem superior plasmada nas leis divina e moral que a antecedem, fica aberta a porta para o legislador se transformar num demiurgo que supõe com arrogância ter o poder de modificar a verdade e a realidade à medida dos seus caprichos de cada momento. Ora, neste plano, tal como nada o impede de decretar hoje que o casamento possa ser uma união entre duas pessoas do mesmo sexo, nada o impedirá de determinar amanhã que casamentos possam ser também as uniões entre três ou mais pessoas de qualquer sexo, as relações incestuosas, de pederastia e bestialidade, porquanto o único limite à vontade do dito legislador passa a ser a capacidade de alcance da sua imaginação perversa. E eis como em nome da liberdade humana é criado um mecanismo totalitário que nega essa liberdade da forma mais absoluta e que, num plano diverso mas paralelo ao que agora analiso, conforme outros já alertaram, trar-nos-á igualmente a liberalização total do aborto até aos noves meses da gravidez, o infanticídio discricionário de recém-nascidos, a eutanásia arbitrária de doentes e idosos, e, enfim, a perseguição pública do Catolicismo.

Por outro lado, não tenhamos a ilusão de que o actual poder político socialista socrático age deste modo com o fito de desviar a atenção da chamada opinião pública da situação calamitosa em que o país se encontra ao nível económico, financeiro e social. Supor tal é um erro em que incorre a falsa direita dos interesses, em Portugal personificada no PSD e CDS, adversa a combater numa guerra cultural cuja importância a sua tacanha mentalidade materialista de guarda-livros não atinge de todo em todo, parecendo incorrer no mesmo erro, ainda que apenas em parte, num dos seus artigos, o próprio Padre Gonçalo Portocarrero. Repito: não tenhamos tal ilusão! Bem pelo contrário, o poder socialista age com plena consciência e sem intenções secundárias. O seu objectivo principal é simples, directo e imediato: erradicar o que ainda resta por inércia da antiga ordem social cristã e substitui-la por uma nova ordem social jacobina e anticristã. De outro modo, como compreender a revolução imoral sofrida por Portugal, no curto período de quatro anos, com a consagração legislativa sucessiva do aborto a simples pedido, do divórcio por vontade unilateral de um dos cônjuges, da amoral instrução sexual nas escolas com distribuição gratuita de preservativos e anticonceptivos, e do emparelhamento de homossexuais?

Passo a relembrar uma verdade esquecida pela maior parte dos católicos contemporâneos estupidificados pelas heresias modernista e progressista, mas não olvidada pelos inimigos destes: a história, toda a história, é um combate religioso permanente entre dois exércitos personificados na cidade de Deus e na cidade dos homens, os quais se enfrentam numa luta sem quartel nem tréguas. É neste contexto que tem de ser percebida a ofensiva socialista, tanto mais que os mentores efectivos desta sabem que o seu tempo começa a escassear, pois o regresso do Rei aproxima-se, como o indiciam todos os sinais exteriores do mundo contemporâneo, desde a sucessão de catástrofes naturais que têm vindo a ocorrer nos anos mais recentes (a última, o terramoto haitiano) até à apostasia generalizada das sociedades ocidentais outrora cristãs (o esfriamento da caridade entendida cristãmente como a atracção irresistível pela verdade).

Deste modo, há que destrinçar o estrutural do conjuntural: o défice orçamental, o endividamento externo, o desemprego, as condições de vida muito difíceis de parte não despicienda da população portuguesa são problemas gravíssimos, frutos eles próprios da terrível desordenação anticristã da nossa sociedade dominada pela agiotagem e ganância, mas apesar de tudo reversíveis e solucionáveis com um maior ou menor esforço colectivo; porém, muito pior é o roubo da nossa essência mais profunda, da nossa alma, contra a qual acomete o poder socialista, pois esse é irreversível e fatal. Não permitamos que o mesmo suceda!

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Deus no Haiti


Aqui deixo o trecho de um belíssimo artigo, cuja leitura integral recomendo, publicado no magnífico blogue "Ex Orbe", local que ultimamente estou a visitar com regularidade quase quotidiana:

Volviendo a la catástrofe de Haití, estoy seguro de que quienes hoy se escandalizan y blasfeman contra Dios por el terremoto, anteayer ni sabían ni tenían en su mente la miseria atávica de Haití y la culpable omisión de los estados a la hora de solucionar o atender los endémicos problemas estructurales de naciones y sociedades como esa. Quiero decir que no se escandalizan del Haití que se muere miserablemente dia a dia, pero sí del que sufre un terremoto.

Si la catástrofe hubiera sido de la misma trágica magnitud en una urbe acomodada y opulenta, el escándalo de los incrédulos hubiera sido mayor, con más profunda rabia. Serían los "tecnócratas" que no son capaces de agradecer a Dios los bienes que disfrutan pero se rebelan contra Dios (en Quien no creen, a Quien han expulsado de su mundo, de su mente, de su personal universo) en cuanto el mundo no les sonrie, o les falla algo, o les surje el dolor o la muerte en su camino. Son los agnósticos post-modernos que profesan un "credo natural" pero no aceptan/no encajan una "catástrofe natural". Viven encima de un torrente seco y se desesperan cuando llueve torrencialmente y el torrente se desborda y les arrastra. Viven sin creer y se revuelven cuando se les viene encima el mundo al que ellos mismos le han negado el Cielo, ¡y culpan al Cielo!

(...)

Cuando en casos como este u otros de mayor tragedia y desconcierto me lanzan la pregunta tópica de - "¿Dónde está Dios, dónde estaba?!!!", yo respondo (si me dejan, si me escuchan)que:

Dios (mi Dios) está en un pesebre
Dios (el único Dios) está crucificado

Y estuvo también "muerto y sepultado". Y vive y reina glorioso por los siglos de los siglos, eternamente feliz, omnisciente y omnipotente. Y lo ve todo y lo sabe todo y nada pasa sin que su voluntad lo quiera o lo consienta. Y proclamo todo esto con esa capacidad de responder y comprender y expresar lo inexpresable que me da la Fe para decir-verbalizar el Misterio de Dios que se hizo carne, que se hizo hombre, y que subió al Cielo y vive y reina con un cuerpo sacrificado que lleva como prueba del dolor cinco llagas en pies, manos y costado. Cinco llagas que no se han cerrado y que siguen abiertas y ofreciendose en acto por cada herida que sangra hoy en Haití y todos los días en todo el mundo sufriente y doliente, que Él sabe como nadie sabe y conoce como ninguno conoce.

Así es Dios, ese es mi Dios, en el que creo, por Quien no me escandalizan los dolores y las penas del mundo porque Él los lleva a cuestas, a todos, sin escandalizarse de ninguno ni por ninguna causa o cosa de este mundo que sí se escandaliza de Él.

¡Bienaventurado quien no se escandalice de Él! Porque siguen siendo un escándalo para el mundo el Dios Crucificado y el misterio del dolor que nosotros creemos y sabemos que es Misterio de la Cruz.


Quem quiser, pode ajudar as vítimas da tragédia haitiana através da Fundação AIS (Ajuda à Igreja que Sofre).

Sobre o assunto, a ler também: Haiti - do terror à beleza, e desta à hipocrisia.

Fotos: retiradas do blogue de Andrew Cusack.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Em defesa da obra do Criador

Prosseguindo a nossa reflexão, é necessário evidenciar a complexidade da problemática do ambiente; poder-se-ia dizer que se trata de um prisma plurifacetado. As criaturas são diferentes umas das outras e podem ser protegidas ou, pelo contrário, colocadas em perigo de diversas maneiras, como no-lo demonstra a experiência diária. Um destes ataques provém das leis ou dos projectos que, em nome da luta contra a discriminação, atentam contra o fundamento biológico da diferença entre os sexos. Refiro-me, por exemplo, a países europeus ou do continente americano. «Se tiras a liberdade, tiras a dignidade»: diz São Columbano (Epist. n. 4 ad Attela, in S. Columbani Opera, Dublim, 1957, p. 34). Todavia a liberdade não pode ser absoluta, porque o homem não é Deus, mas imagem de Deus, sua criatura. Para o homem, o caminho a seguir não pode ser fixado pelo que é arbitrário ou apetecível, mas deve, antes, consistir na correspondência à estrutura querida pelo Criador.

Papa Bento XVI, em notável discurso ao corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé

Da deriva totalitária secularista

Com a consagração legislativa dos emparelhamentos de homossexuais, o actual poder político socialista confirma - depois da aprovação na anterior legislatura do divórcio por vontade unilateral de um dos cônjuges e do aborto a simples pedido - haver enveredado por uma deriva totalitária secularista e anticristã, cujo fundamento basilar é a crença supersticiosa e irracional no poder absoluto e ilimitado da lei positiva humana. Libertada esta última de qualquer subordinação a uma ordem superior plasmada na existência das leis divinas e moral, o legislador, mais do que em engenheiro social, transforma-se num demiurgo que supõe com arrogância ter o poder de modificar a verdade e a realidade à medida dos seus caprichos de cada momento. Deste modo, e perante esta ordem de coisas, o mesmo legislador tanto pode decretar hoje que o casamento é a união entre duas pessoas independentemente do seu sexo, como amanhã determinar que uma figura geométrica com dois lados é um triângulo. E assim sucessivamente, subindo cada vez mais degraus da escadaria do absurdo.

Ora, é fácil de constatar aonde conduz a crença em análise: foi ela que gerou os totalitarismos revolucionários nacional-socialista e comunista que marcaram o século XX com milhões de mortos; é também ela que dará origem - caso a Providência Divina não se lhe oponha - à futura nova ordem mundial que dominará ferreamente o século XXI, numa base totalitária neo-ateísta e com muitos milhões de mortos mais (ver aqui e aqui), e que outra coisa não será do que a república universal do Anticristo, da qual apenas o Rei, em pessoa e em reclamação do seu Reino, nos conseguirá libertar.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Rumiando sobre el divorcio

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La base de la sociedad no es el individuo, sino la familia. Los gobiernos se han hartado en estas últimas décadas de dinamitar la familia con leyes permisivas del divorcio, con penalizaciones económicas a la familia, con no favorecer fiscalmente a las familias numerosas, con suprimir el derecho de reunificación de familias por motivos laborales, etc, etc.

La situación actual, donde los gobiernos dinamitan en la base –en la familia- a la misma sociedad en la que se estriban y apoyan no tiene parangón histórico. Es, simplemente, un suicidio en toda regla alentado por todos los áulicos del Enemigo.

El epítome moderno es la consideración económica. Ahora nos dicen que el divorcio es caro, que las familias monoparentales ocasionan mucho gasto al Estado. ¡Para este viaje no se necesitaban estas alforjas! Pero no paran mientes en ello. En todo caso, si el divorcio ocasiona tantos males, ¿por qué legislarlo de un modo tan permisivo? Pero no paran mientes ahí. Su actitud es perversa: prefieren el aborto al parto porque es más caro este último. O eso dicen las aseguradoras médicas norteamericanas. Es odio a la vida: es odio al futuro.

En otro orden de cosas se acusa a la Iglesia de varios latrocinios tan infundados como exitosos. Entre ellos que el que tiene dinero consigue la anulación y el que no lo tiene, no. El Matrimonio católico es indisoluble, por más que les pese a algunos. El problema, el verdadero problema, es que hoy día hay muchas bodas y pocos Matrimonios. Espero que el Padre Gómez Jaubert, autorizada voz en estas lides, deshaga estos mitos y nos ayude a desfacer el entuerto.

La sociedad civil, pervertida por los gobiernos, sí está sufriendo un proceso de divorcio profundo.

De divorcio de la realidad.

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Rafael Castela Santos

domingo, dezembro 27, 2009

Villancico


En Belén, villa de amor
del rosal nació una flor
Virgen sagrada.

En Belén, villa real
flor de nieve da un rosal
Virgen sagrada.

Del rosal nació una flor
Jesús nuestro Salvador
Virgen sagrada.

Flor de nieve da un rosal
Dios y hombre natural
Virgen sagrada.

Blanca y rosa estáis, Señora
noche buena por ahora
Virgen sagrada.

Pero en cánticos y en luz
piensa el niño ya en la cruz
Virgen sagrada.

Pero hoy no importa nada.
¡Tiempo habrá para la pena!
¡Noche buena, noche buena!
¡Virgen sagrada!


Padre Leonardo Castellani

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Um Santo Natal!


"A Casa de Sarto" deseja a todos os seus leitores e amigos um Santo Natal!

De regresso a Nicolás Gómez Dávila

Desde que a descobri, regresso com frequência à leitura da obra de Nicolás Goméz Dávila, que hoje tenho em conta de ser um dos maiores escritores católicos do século XX. Nele admiro a sua profunda erudição nos campos da teologia, da filosofia, da literatura, da ciência política, da história, da sociologia e da psicologia, e acima de tudo, conjugando-os a todos, a ironia finíssima, mas terrivelmente devastadora, com que demole em geral as taras da modernidade e em especial as do progressismo dito cristão. Quem mais, se não Nicolás Gómez Dávila, poderia afirmar com precisão arrasadora: La palabra “humanidad” en boca del católico es signo de apostasía, en boca del incrédulo presagio de matanzas.

Por tudo isto, foi com enorme surpresa e maior alegria que encontrei este "Angel cautivo en el tiempo": um excelente blogue católico tradicional que tem como fonte condutora os trabalhos do notável pensador colombiano. Recomendo-o a todos os meus leitores. Vale mesmo a pena lê-lo!

segunda-feira, dezembro 21, 2009

O episcopado que o Papa vai encontrar em Maio próximo

Um episcopado em comprovado estado de heresia, cisma prático e apostasia perante a verdade católica. Como se ainda existissem dúvidas a este respeito... Mas não existem! De novo, não invento nada. Remeto, de imediato, para os artigos abaixo referidos, que fazem aumentar um ramalhete de iniquidades já nada pequeno:

- Algumas perguntas ao Bispo de Viseu;

- Justo pedido de esclarecimento.

Acrescentaria tão-só mais dois pontos.

Primeiro, é uma honra para os católicos tradicionais que esta gente levante todo o tipo de entraves à celebração da Missa de sempre, mostrando assim que a nossa religião nada tem a ver com as heresias deles.

Segundo, em relação ao caso patológico do Bispo de Viseu, insisto no que aqui já escrevi em tempos: Roma não tem outra alternativa que não seja a de reprovar os ensinamentos erróneos deste e exigir a sua retractação pública pelos escândalos que tem provocado. Caso tal retractação não aconteça, à mesma Roma não restará outra alternativa que não seja a de concluir que tal bispo deixou de ter condições para exercer publicamente o seu múnus episcopal e, em consequência, deverá destitui-lo de funções. Menos é impossível de exigir em coerência, face ao precedente aberto com a situação de Monsenhor Williamson.

Da Igreja militante em Portugal contra a Igreja claudicante

O que não fariam pela defesa das verdades de fé e moral católicas em Portugal, dois a três bispos e mais cinquenta sacerdotes que ousassem falar a linguagem efectivamente cristã e evangélica do Senhor Padre Nuno Serras Pereira, de sim, sim, não, não, face aos disparates do mundo?! A realidade, porém, é bem outra e deveras lamentável: no nosso país, a Igreja Católica deixou de ser uma Igreja militante para passar a ser uma Igreja claudicante, muleta cúmplice e silenciosa de um poder jacobino e anticristão, apostado em aniquilar os valores civilizacionais mais profundos dos portugueses e transformar estes num bando de bestas dominadas pelos seus instintos mais baixos e primários.

Ora, é neste contexto que merece os mais rasgados elogios o combate praticamente solitário que o ilustre sacerdote católico que é o Senhor Padre Nuno Serras Pereira tem vindo a travar em defesa da verdade cristã: sozinho faz mais por esta última do que toda a Conferência Episcopal Portuguesa em conjunto, permitindo que a Igreja militante continue a existir em Portugal! Comprovam-no a luta infatigável que move contra o crime do aborto e a aberração dos emparelhamentos homossexuais, plasmada nos corajosos artigos que publica regularmente no imprescindível "Logos" e que traduzem o pleno sentir de todos os católicos dignos desse nome (ainda que não - como é óbvio! - dos lobos com pele de cordeiro, católicos de letreiro e embaixadores do príncipe deste mundo no seio da Igreja, vulgarmente conhecidos por progressistas).

De tais artigos, destacaria, sugeriria e recomendaria a leitura dos que abaixo indico, face à recente ofensiva socialista contra a ordem natural que deve vigorar no casamento:

- Casamento entre homossexuais. É lá com eles?

- Casamento ou união civil?

- Também enganarão o Papa?